As historinhas

Quando cheguei à Vara de Família do Partenon, me perguntaram se eu manteria a sala de audiências como estava. Fui ver: uma mesa oval, em torno da qual sentavam no mesmo plano juiz, promotora, defensores e partes; quadro negro na parede; brinquedos; revistinhas. Claro que mantive.

A mesa e o quadro eram iniciativa do Roberto Arriada Lorea, juiz que tinha saído, os brinquedos e revistinhas da Patrícia Zanchi Cunha e da Cassandra Sibemberg Halpern, promotora e defensora pública.

O ambiente era um convite a uma jurisdição humana, ao diálogo, à empatia. Confesso que tenho um quê de formal, e não usei todo o potencial oferecido pelo Lorea (nunca, por exemplo, cheguei perto do quadro), mas me encantei com as possibilidades oferecidas por uma sala dessas, na companhia de pessoas que acreditavam ser possível de algum modo contribuir para melhorar a vida de quem precisava do Judiciário.

Tive na Patrícia uma parceira constante numa relação de quase cumplicidade e raras divergências, o que por definição não pode acontecer entre juiz e promotor numa Vara Criminal; com a Cassandra isso não era possível, justamente por ser parte, mas foi parceira nas propostas que podiam ser comuns, como na ideia de desenvolver um projeto para enfrentar a alienação parental.

Nas não raras ocasiões em que filhos eram trazidos para as audiências, a Patrícia, com uma simpatia só dela, convidava as crianças a pegarem algum brinquedo ou lápis e papel ou revistinhas da Mônica e do Cebolinha e irem ao meu gabinete. Chegamos ao ponto de, pela troca de olhares, concluirmos, após uma breve distração, que estava na hora de a Patrícia entrar em ação, para poupar a criança de presenciar o conflito entre os pais.

Às vezes eu pensava que talvez pudéssemos oferecer outra possibilidade de leitura, e um dia me ocorreu escrever historinhas para ler durante a audiência dos pais.

Escrevi, e agora as ofereço para leitura.

Confesso que estou inseguro: não garanto qualidade literária nem sei se estou livre de ter cometido algum equívoco didático, mas escrevi com a intuição de um juiz que tantas vezes conversou com essas crianças e pensa que talvez elas colham nas historinhas toda a dimensão humana da separação, vejam que outras crianças passam pela mesma situação, percebam que os adultos são muitas vezes tão inseguros quanto elas e, principalmente, saibam que é possível ser feliz mesmo depois de a vida nos pregar peças.

Os textos são singelos, mas cresceram com a sensibilidade das ilustrações do Santiago e a maestria do Rodrigo Moraes na arte.

Pena que as historinhas não tenham ficado prontas enquanto eu lá estava, mas ficam como o pedaço que deixei de mim na Vara da Família.

Para quem quiser, há exemplares físicos na Ajuris. O exemplar virtual está à direita, com duas opções de leitura: folhear o livro ou baixar em PDF.

Se acharem que vale a pena, pirateiem sem culpa.