Medo, surpresa, emoção

O pacote anticrime do nosso Ministro da Justiça traz tudo o que se pode esperar de um governo de extrema direita: endurecer, endurecer, endurecer.

Muitos já fizeram seus comentários e mostraram as consequências que dele virão: prender, cada vez mais, os mesmos de sempre, os pretos e os pobres, que breve conhecerão os presídios na sua versão vertical, depois da brilhante ideia do também direitista governador do Rio de Janeiro. (mais…)

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Carta à Panvel

Senhor Presidente:

Sou cliente da Panvel, com cartão e tudo. Se mais não compro, é porque felizmente não cheguei ainda àquela idade em que a maior parte da nossa poupança é destinada a medicamentos. Mesmo assim, são décadas de fidelidade, que vem desde a época da Panitz e da Velgos. Para que tenha uma ideia, lhe digo que há um par de anos abriu perto de minha casa uma farmácia que praticava preços melhores, mas continuei a comprar da Panvel.

Nunca houve um motivo particular para isso, mesmo porque não sei se há diferença de qualidade em relação às outras farmácias. Talvez seja mais uma manifestação inconsciente de uma certa mística gaúcha, que em outros tempos me fazia voar com a Varig e continua a me sugerir que abasteça nos Postos Ipiranga. Talvez conte ainda o germanismo do nome Panitz. São, de qualquer maneira, manifestações atávicas, sem explicação racional, que me fazem desviar o passo, mesmo quando há farmácia mais próxima e mais barata. (mais…)

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Desastre

Algumas coisas não estão claras. Não está claro se a Globo ressuscitou o jornalismo investigativo ou se está apenas usando seus fortes argumentos para convencer Bolsonaro de que talvez o mais prudente seja continuar a lhe destinar uma grana preta em publicidade.

Também não está claro se o que vem sendo revelado é apenas extorsão de salário de assessores, o prosaico Rachid, tão comum no baixo clero, ou se há coisas mais sérias, como envolvimento com o crime organizado, em particular as milícias. (mais…)

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Apesar de comunista

Fui elogiado. A notícia me veio truncada, e o que sei é que fui assunto numa conversa entre terceiros, na qual, provavelmente diante de alguma alusão do interlocutor ao meu radicalismo, o amigo me defendeu, dizendo que, mesmo comunista, eu era uma pessoa de diálogo e bom senso.

Não posso negar que fiquei envaidecido com o elogio, do mesmo modo como, há mais tempo, ficara feliz quando uma pessoa revelou seu espanto ao descobrir que eu trabalhava, porque imaginava que gente de esquerda só dava discurso e militava. (mais…)

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Direitos Humanos na resistência

Em Curitiba, mais de duzentos lares foram destruídos pelo fogo após ação policial; na Paraíba, dois líderes de uma ocupação do MST foram executados. Isso aconteceu em intervalo de poucas horas, dois dias antes da comemoração dos 70 anos da Declaração Universal de Direitos Humanos.

Faz tempo que isso não é novidade num país antes dito pacífico, mas onde de fato nunca foi abolida a escravidão: por isso, na semana que se seguiu a violência continuou, e o Pará presenciou o fuzilamento de um líder do MST na quinta e de outro no sábado. (mais…)

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Os médicos

Era 2013. Fui a uma solenidade em entidade de médicos. Nunca antes nem depois voltei a ver tantos médicos juntos. E me surpreendi com o discurso do orador principal, que logo tomou como eixo a crítica aos médicos cubanos. Havia, é claro, uma natural motivação corporativa, porque, mesmo que viessem para trabalhar onde nenhum médico nativo se dispunha a ir, ao menos em tese eles invadiriam um mercado reservado aos médicos brasileiros.

Mas o discurso, que rapidamente se inflamou, na mesma velocidade em que se tornava vermelho o rosto do orador, do mesmo modo enveredou para a desqualificação profissional, seguida da denúncia ao propósito oculto de espalhar guerrilheiros pelo Brasil. E a plateia de médicos se entusiasmava com o discurso, cujo fim apoteótico foi ovacionado em pé. (mais…)

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Trevas e fogueiras

Há quem diga que a Idade Média não foi nada disso, mas me ensinaram como a idade das trevas, e poucas vezes uma ideia me foi tão facilmente transmitida como essa, porque passei a imaginar o mundo de então numa noite sem fim, de ignorância e miséria total.

Não é por nada que, equivocadamente, a pensava como o tempo em que bruxas e hereges eram queimados nas fogueiras: tinha tudo a ver com essa escuridão eterna, a realçar a visão dos rostos retorcidos que a luz das chamas revelava. (mais…)

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No nazismo

Tenho pensado muito no nazismo. Talvez seja sinal dos tempos, mas há algo mais: hoje, quando novamente pensava, me dei conta de que muitas das minhas esparsas e caóticas leituras dos últimos anos tratam dele, direta ou indiretamente. Foi só começar a pensar e me vieram os nomes: Elias, Arendt, Klemperer, Levi, Ingrao, Rosenberg, livros de e sobre os irmãos Mann, de e sobre Brecht, de e sobre Freud e Reich, biografias que vêm desde Bismarck, Wagner e Nietzsche e desaguam nos filhos dos nazistas, livros sobre a República de Weimar, sobre como viviam os judeus antes do Holocausto, sobre a ascensão do nazismo, sobre a queda do nazismo. Agora mesmo, enquanto me distraio da angústia dos dias lendo Gombrich, me espera a leitura de “A questão da culpa”, de Karl Jaspers. (mais…)

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Fake news

Em tempo de bolhas, me instalei confortavelmente na minha, e pouco sei do que acontece fora dela. Fiz o que muitos fazem, sob a crítica dos estudiosos das redes sociais, que veem, na exclusão de quem pensa diferente, o fechamento de portas para o diálogo.

Fiz aos poucos, silenciosamente, ora quem espalhava notícia falsa, ora quem manifestava opinião preconceituosa, ora quem apenas falava abobrinha. Assim foi, e, conforme a intensidade da afronta, ou então da irritação do momento, minha reação era de simplesmente deixar de seguir ou terminar a amizade ou, em casos extremos, bloquear. (mais…)

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