Mina da nossa miséria

De Getúlio a Dilma, atravessamos vários períodos de aposta no desenvolvimento nacional, não subordinado ao grande capital internacional, principalmente o americano. Não foi sempre um projeto de governos democráticos nem necessariamente de esquerda, basta ver que um dos pontos altos dessa política aconteceu no Governo Geisel.

Falar em desenvolvimento na segunda década do século XXI pode não gerar entusiasmo, principalmente entre os que percebem o quanto o conceito de crescimento fundado no PIB está na base da degradação ambiental do planeta, mas é certo que tais políticas tentavam dar ao Brasil um protagonismo econômico cuja possibilidade de realização foi fulminada a partir do golpe de 2016, com a entrega do governo a setores empenhados na subordinação ao capital internacional, principalmente americano. (mais…)

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Alta traição

Julian Assange foi preso. Expulso da embaixada do Equador em Londres, na qual estava asilado há quase sete anos, o fundador do WikiLeaks foi entregue para a polícia inglesa. Seu provável destino são os Estados Unidos, onde provavelmente será acusado por alta traição.

E não é sem motivo: há dez anos o WikiLeaks vem vazando informações sigilosas dos Estados Unidos, que revelam, entre outras coisas, métodos organizados de tortura e assassinatos, além de espionagem generalizada, incluindo suas autoridades máximas de outros países, entre as quais a toda-poderosa Angela Merkel. (mais…)

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Não é engano

Noite de domingo. Chego em casa e verifico as postagens. Logo me chamam a atenção três vídeos curtos com um jovem negro em alguma esquina de São Paulo. No primeiro, ele é revistado de modo humilhante por um policial militar, enquanto outro policial acompanha a cena com revólver em punho; no segundo, os policiais se dirigem à pessoa que filmava a cena e lhe exigem os documentos; no terceiro, já sem a presença dos policiais, o jovem revistado desaba em choro, certamente causado pela humilhação sofrida. O áudio pouco registra, mas se pode ouvir que, em certo momento, o policial berra, enquanto segue a revista: cala a boca, senão você vai preso! E segue: não tô aqui como cidadão, tô como polícia! (mais…)

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Ruas lavadas de sangue

Quando, no futuro, alguém escrever a crônica das sandices proferidas nesta época, teremos uma demonstração prática do que é uma tragicomédia. Ou então, na melhor linha trash, de um filme do gênero terrir.

Mas isso só na crônica do futuro, porque hoje, quando vivemos os tempos de que o cronista tratará, e ainda que nossa necessidade de seguir vivendo nos faça rir e debochar, é impossível não sentir a presença do elemento de tragédia, ainda que impulsionado do modo mais grotesco. (mais…)

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Réquiem para meu amigo

Querido amigo:

Estou aqui imerso em lembranças. Uma delas sobressai, por ela sempre começo e termino. Depois de ter uma ideia genial (sempre tinha ideias geniais), te encontrei de manhã, eu lendo o jornal, tu já em incessantes atividades, e chamei enquanto passavas: que achas de fazermos tal coisa (a ideia genial)? E tu: então faz, tu vive tendo ideias, começa a fazer!

Assim eras: quando tinhas uma sugestão, ela vinha acompanhada de detalhes sobre os passos a serem dados, ou até com vários passos já dados. Teus passos não cessavam: eras movimento. (mais…)

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Carta para Lula

Caro presidente Lula:

Há alguns meses sugeriram que as pessoas lhe mandassem cartas ou enviassem livros, como modo de fazer ver que há brasileiros que se preocupam com sua situação.

Pensei em escrever alguma coisa, mas não consegui: geralmente tenho dificuldade para pronunciar palavras de conforto e com certeza muitos escreveram linhas mais alentadas do que eu seria capaz.

A ideia me voltou algumas vezes, e certa feita pensei em lhe mandar um singelo livrinho que escrevi. Não serviria para contribuir para a sua profunda compreensão da realidade nacional, que para isso você tem muitas excelentes fontes, mas achei que poderia lhe agradar a ideia de um dia ler as historinhas para seus netos, que adorariam ver as belas ilustrações do Santiago.

Mas, sabe como é, a vida é um turbilhão, e acaba nos levando de roldão, sem que façamos as coisas que poderiam nos tornar mais humanos. O fato é que nunca enviei as historinhas, nem escrevi a dedicatória, que agora tento imaginar como poderia ter sido.

Eu as escrevi para dar a crianças que, sem terem onde ficar, acabavam acompanhando os pais ao Fórum, onde aguardavam no corredor as difíceis consequências da audiência de uma Vara de Família, vivendo o sofrimento do conflito e da separação.

Eram audiências diferentes daquelas que você viveu, mas, como essas, que o separaram de milhões de pessoas que o amam, deixavam em suspenso para cada uma dessas crianças o afeto e a esperança no futuro.

Me arrependo de não ter lhe mandado as historinhas. Provavelmente você nem as teria visto, perdidas entre milhares de cartas e livros, mas, como sempre dizem, o que vale é a intenção, e o presente teria sido de coração.

Hoje penso que você as poderia ter lido para Arthur. Claro, eu sei, está tão difícil deixarem você fazer qualquer coisa, e também não te deixariam mostrar o livrinho para ele, mas na minha imaginação eu fiz o que não fiz e eles permitiram o que não permitem.

Bem, você já não as lerá para Arthur, e, neste momento de dor, resta te dar um abraço no coração.

Que estas palavras sirvam de dedicatória para o livrinho que não enviei.

Prometo que o enviarei, para que possas ler aos outros netos.

Fica bem.

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Era uma vez um país pacífico

O Brasil é um país pacífico. Cresci ouvindo esse conceito, a um tempo aplicável à nação e aos nacionais. A natureza afável do brasileiro, geralmente afirmada de modo associado com uma não tão lisonjeira indolência, correspondia coletivamente a uma vocação brasileira para a paz.

A participação brasileira na Segunda Guerra não contava, porque o propalado heroísmo dos pracinhas da FEB na Itália não ocultava o fato de que a guerra tivera outros atores e nossa participação fora marginal. Já a guerra contra o Paraguai, temível adversário comandado pelo sanguinário Solano López, acontecera há mais de um século, e por isso não desmentia essa verdade. (mais…)

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A figueira

Após iniciarem como uma desagradável obrigação, logo as caminhadas diárias se revelaram prazerosas, e não só por causa da frase, antes incompreensível, que via em adesivos: viciado em serotonina.

O fato é que a caminhada se dá em cenário vedado aos sedentários, e dele retiro sensações de outro modo inalcançáveis. O Alim Pedro, onde há alguns meses vi amanhecer o IAPI, é um lugar frequente para visões, como o ataque rasante de um joão-de-barro, que, numa manhã de quase chuva, pôs em fuga duas improváveis saracuras. (mais…)

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Medo, surpresa, emoção

O pacote anticrime do nosso Ministro da Justiça traz tudo o que se pode esperar de um governo de extrema direita: endurecer, endurecer, endurecer.

Muitos já fizeram seus comentários e mostraram as consequências que dele virão: prender, cada vez mais, os mesmos de sempre, os pretos e os pobres, que breve conhecerão os presídios na sua versão vertical, depois da brilhante ideia do também direitista governador do Rio de Janeiro. (mais…)

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Carta à Panvel

Senhor Presidente:

Sou cliente da Panvel, com cartão e tudo. Se mais não compro, é porque felizmente não cheguei ainda àquela idade em que a maior parte da nossa poupança é destinada a medicamentos. Mesmo assim, são décadas de fidelidade, que vem desde a época da Panitz e da Velgos. Para que tenha uma ideia, lhe digo que há um par de anos abriu perto de minha casa uma farmácia que praticava preços melhores, mas continuei a comprar da Panvel.

Nunca houve um motivo particular para isso, mesmo porque não sei se há diferença de qualidade em relação às outras farmácias. Talvez seja mais uma manifestação inconsciente de uma certa mística gaúcha, que em outros tempos me fazia voar com a Varig e continua a me sugerir que abasteça nos Postos Ipiranga. Talvez conte ainda o germanismo do nome Panitz. São, de qualquer maneira, manifestações atávicas, sem explicação racional, que me fazem desviar o passo, mesmo quando há farmácia mais próxima e mais barata. (mais…)

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