Tuiuti

Vou caminhar, mais por obrigação com a saúde que por gosto. Começo contornando a alta vegetação, característica das praças porto-alegrenses deste verão, e ouço, do extremo oposto, o som agudo do aparador de grama.

Torço que não estejam perto da pitangueira, para onde programei uma busca às temporonas. É bem lá que estão. Mesmo assim paro, consigo colher três ou quatro, enquanto troco algumas palavras com o que está mais próximo.

Quando saio, pergunta se tenho trocado para um café e respondo que não carrego dinheiro quando caminho. Ele dá um sorriso e me deseja um excelente feriadão.

Conto cinco, nas funções de corte, capina e varreção, com o uniforme laranja da Cootravipa, e penso, como sempre penso quando os vejo, se há efetivamente trabalho cooperativo ou se é um modo de barateamento de mão de obra. O fato é que, cooperativo ou não, trata-se de um desses trabalhos subalternos, reservados aos mais pobres e com baixa escolaridade.

Se conto cinco, conto cinco negros. Não moram negros nas casas e prédios que cercam a praça, mas são eles que cortam a grama.

Sigo caminho. A cinquenta metros, já na esquina, há um pé de araçá. Enquanto faço nova colheita, passa o caminhão da coleta seletiva, de onde dois lixeiros gritam uma saudação, respondida às minhas costas. Negros, eles, os lixeiros (não vi o motorista).

Olho para trás, e agora conto seis: não havia visto antes a mulher do grupo. Negra.

Saio dali, ainda paro em outra pitangueira, enquanto penso em escrever sobre isso no final de semana. Será fácil, penso, já tenho o início do texto.

Passa o sábado, passa o domingo, e não escrevo. O texto não vem, não consigo desenvolver a ideia.

Acordo na segunda com os comentários sobre o desfile da Paraíso do Tuiuti. Não sou carnavalesco, mas vou assisti-lo.

Decido então: não escreverei mais nada, prefiro que assistam ao desfile da Tuiuti.

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3 comentários em “Tuiuti

  1. Um texto que é pura sensibilidade social, que dói, que põe o dedo na ferida. Ainda tem muita gente que não entende, e por isso não concorda, com as cotas. Parabéns.

  2. Caro Pio, tudo bem?

    Estou trabalhando em um projeto de documentário que pretende abordar a inacabada transição do sistema escravocrata para o Estado Democrático de Direito capitalista no Brasil, e como essa inacabada abolição reflete no momento turbulento que enfrentam nossa sociedade e nossas instituições. Além do registro em vídeo dessa explícita realidade, onde os negros dominam os presídios, as favelas e os necrotérios, enquanto os brancos são exclusividade nos altos escalões dos três Poderes, nos restaurantes finos, nos bairros “nobres” e nos bons hoteis (exceto, claro, pelos serviçais), pretendo entrevistar diversas pessoas. Admirador de seus textos, gostaria de saber se poderia contar com sua colaboração (caso o projeto realmente saia do papel…). Uma das etapas do projeto seria justamente filmar em Porto Alegre, para contrapor a capital gaúcha aos locais com maior número de negros (Bahia, Rio, Minas). Nesse caso, uma conversa com um magistrado poderia ser muito rica para a construção da narrativa.

    Saudações cordiais.

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