Suruba

Fui cobrado. Escrevi há alguns dias, e ouvi a crítica: como assim, achar que o Moreira Franco, tão lembrado nas delações, pode ser nomeado ministro? Optei pela resposta simples, e disse: pelo mesmo motivo que me levava a defender que Lula fosse nomeado.

A tréplica foi imediata: mas não proibiram o Lula de tomar posse? Complicou, e fui obrigado a um malabarismo, para dizer que defendo a aplicação da lei, e não vejo como proibir o presidente de nomear ministro alguém que nem ao menos foi denunciado. Até lembrei, com um sorriso amarelo, que Temer prometeu demitir ministro que venha a ser denunciado.

Logo vi que a resposta não satisfez, e avancei naquele velho papo de que direito não é matemática e que há uma atividade humana de interpretação da norma e de avaliação dos fatos. Mas a situação complicou: quer dizer que um ministro diz que o Lula não pode e o outro diz que agora a situação é diferente e tu te dás por satisfeito?

Ouvi pela milésima vez que sou ingênuo, não aprendo, que, mesmo fazendo críticas, como quando afirmei criminoso o vazamento das interceptações telefônicas, sigo acreditando no sistema. Sim, sei, minha posição não é confortável, mas, veja bem, se, de fato, no próprio Judiciário a vontade do julgador vem se sobrepondo à lei, não é o caso de lutarmos para que se observe a lei, ao invés de propormos um embate entre vontades conflitantes? E acrescentei, despretensiosamente: consegues imaginar qual vontade prevaleceria?

Mas a crítica não cessava e batia na tecla da coerência: tudo o que vale para um lado deve valer também para o outro. Disse que concordo, é um critério a seguir, até mesmo para que se mantenha a credibilidade no sistema judicial, sem a qual não podemos nem mesmo acreditar na democracia. Fiz de conta que não percebi o sorriso zombeteiro e prossegui: o fato é que existe a esfera da política, que precisa ser preservada. Foi por isso que defendi a posse, e sei muito bem que criar cargo de ministro para uma pessoa acusada é mais uma das temeridades políticas recentes, e de duvidosa moralidade, mas deve ser pago politicamente e não decidido nos tribunais.

Breve silêncio, a expressão seguia de divergência. Logo, continuou o ataque, agora por outra frente: concordas com o foro privilegiado? Segui legalista: digamos que não sou adepto de surubas, mas, se a lei estabelece o foro privilegiado, como atropelá-la?

Por tão preocupado em defender a legalidade e ao mesmo tempo a preservação da esfera própria da política, não me dei conta de que agora só me era pedida uma opinião, e a pergunta se repetiu.

Segui na defensiva e digredi, dizendo que foro privilegiado não é garantia de impunidade e o Supremo também julga e condena, mas fiquei sem argumento quando ouvi que lá os processos se arrastam por muitos anos e acabam prescrevendo, ou então são julgados quando já não podem produzir nenhum efeito sobre o poder.

Como?, respondi rápido, não lembra do mensalão? Mas o efeito não foi o esperado, e de lá veio uma espécie de xingamento murmurado, em que identifiquei frases recheadas de palavrões, e pensei ter ouvido alguma referência a domínio do fato.

A conversa se estendia e não me sentia confortável com esse ataque incessante. Resolvi abreviá-la, e me fixei no foro privilegiado. Disse que talvez seja muito elástico, que haja cargos demais protegidos por ele, e devesse ser limitado.

A contestação seguia, mas agora fui eu que dei a estocada: já imaginou Presidente da República ser julgado em Curitiba?

Aproveitei o silêncio momentâneo e dei tchau, antes que a carga recomeçasse.

Como viram, o texto não foi sobre suruba. Suruba quem falou foi o senador Jucá, alcunhado de Caju. Aproveitei o carnaval e botei no título, para ver se me leem.

A ilustração é de Picasso, sobre o Bacanal de Poussin.

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2 comentários em “Suruba

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