Sístole e diástole

Vamos começar pelo começo: você achava que o TSE cassar a Dilma era golpe e agora acha um absurdo ele não ter cassado Temer? Nesse caso, antes mesmo de formarmos um juízo sobre o TSE, teremos de entender o motivo desse seu pensamento.

Veja só: Dilma era candidata a presidente, Temer a vice. Na mesma chapa. Não interessa tudo o que aconteceu depois, Temer dizer que era figura decorativa, conspirar, querer acabar com o Direito do Trabalho, impor goela abaixo a reforma previdenciária, ser gravado por Joesley e o que mais conseguirmos lembrar, o fato é que o TSE estava julgando a chapa vencedora das eleições de 2014.

Por isso, tem uma coisa muito clara: se o TSE não podia cassar Dilma, também não podia cassar Temer; se tinha que cassar Temer, era porque deveria também ter cassado Dilma.

O fato é que torcemos, e a maior parte dos que torcem por Dilma torcem contra o Temer e a maior parte dos que ainda torcem por Temer torcem contra a Dilma.

Mas, o que o TSE tem a ver com isso? O TSE deve fazer justiça, e fazer justiça não necessariamente é fazer aquilo que você torce que seja feito. Aliás, torcida não tem muito a ver com justiça, e é por isso que as pessoas não se incomodam tanto quando o gol em impedimento é a favor. Brabo é quando ele é contra, e nesse caso o juiz é ladrão.

Quando o Aécio e o PSDB impugnaram no TSE o mandato de Dilma, não houve eleitor dela que não pensasse nisso como uma tentativa de golpe. E era, né? Como foi golpe o impeachment. Mas, por que então agora a decisão teria de ser outra?

Claro, um monte de coisas aconteceu e o que sabemos agora não é o que sabíamos antes, mas no fundo o que queremos é aquela justiça que atribuímos a Deus, que escreve certo por linhas tortas. Estamos convictos de que Temer é corrupto? Ou golpista? Então torcemos para que o TSE o casse, ainda que por linhas tortas.

Bem, poderia fazer curto meu texto e terminá-lo por aqui.

O problema é que não dá, porque falta uma coisa. Falta julgar o TSE.

Talvez até mesmo o problema não esteja em esperar-se de qualquer maneira a condenação de Temer. Nisso, de fato, se pode criticar a postura do torcedor, mas deste sabemos que é um apaixonado.

O problema está em que todos já sabiam como votaria cada ministro. E não porque conhecessem as suas posições jurisdicionais, mas porque atribuíam a eles lugares no cenário político. Em outras palavras, os tinham como atores, não como magistrados.

A questão toda não está em saber se adotaram a posição correta, mas o sentimento geral acerca dos motivos pelos quais adotaram tal posição, que infelizmente não são vistos como nobres.

O fato é que precisamos acreditar nas instituições democráticas, e é muito ruim, mesmo para quem pensa que a decisão foi correta, ter dúvidas sobre os motivos pelos quais foi adotada.

Se acho ruim imaginar que você esperasse a absolvição de Dilma e a condenação de Temer, embora o processo fosse o mesmo, muito pior é que me sinta tomado por esse sentimento de que quem antes condenaria Dilma resolveu agora, como num processo de sístole e diástole retórica, absolver Temer.

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