Sim, acho que és

Querido amigo:

Li ontem a mensagem que compartilhaste e pensei muito nela. Fui dormir pensando e acordei achando que tinha de responder. Na verdade, queria responder para a moça que a escreveu, mas não a conheço e não teria intimidade para lhe dizer as coisas que posso dizer pra ti.

A mensagem foi compartilhada por muita gente, o que significa que calou fundo, e, se a compartilhaste tu também, é porque concordas com ela.

Quero que me desculpes desde logo pela sinceridade, mas os amigos às vezes podem dizer coisas que de outro modo ninguém diria.

Pois quero te dizer que quase curti teu compartilhamento. Sabe como é o Facebook, muitas vezes a gente curte a postagem do amigo sem olhar direito, só por amizade. Além disso, eu estava curtindo tudo que vinha com as cores do arco-íris. Só não curti porque li a primeira frase, e aí me assustei. A moça escreveu – e tu compartilhaste – o seguinte: “correndo o risco de me chamarem de homofóbica…”

Quero te dizer, amigo, que quando leio coisa semelhante minhas defesas se aguçam. É mais ou menos como quando a pessoa começa com “eu não sou preconceituoso, mas…” Tenhas certeza de que coisa boa não virá daí.

Mas tu compartilhaste, o que significa que de alguma maneira te identificaste com a mensagem. Então, quero te dizer, eu que te considero uma pessoa inteligente, que estranhei teres engolido essa falácia. Pensei: mas por quê? Por que atacar com a fome do mundo no dia do arco-íris? Confesso que até fui olhar o perfil da autora da mensagem: ela é da Bahia, podia, como a Irmã Dulce, repetir como um mantra salvem da fome as crianças do mundo. Mas não, até tem comida no seu perfil, só que não para as crianças famélicas.

E tu, amigo, publicas outras coisas, tuas viagens à Europa, de vez em quando também comida (mas aí é o churrasco do domingo, junto com o tannat), às vezes belas paisagens, também as fotos com a namorada, tua moto, teu cachorro. Mas, não tem nada sobre fome, sopão para morador de rua, doação de agasalho no inverno, nem mesmo adoção de gatinho órfão.

Por isso, confesso, não sabia que te preocupavas com a fome no mundo. Se te preocupas, nunca o revelaste publicamente.

Te pergunto, a ti, que és uma pessoa inteligente: não viste na mensagem esse tom falacioso, de criar uma oposição inexistente entre duas coisas que merecem nossa atenção? Ou achas sinceramente que quem defende os direitos dos homossexuais é contra o combate à fome?

Mas, por que então compartilhaste a mensagem?

Foi pensando nisso que resolvi te escrever.

Na verdade, nós dois sabemos que não te preocupas tanto com essa criança famélica ou, se te preocupas, de qualquer maneira isso não te tira o sono.

O motivo real de compartilhares a mensagem foi o fato de que todos esses arco-íris te incomodaram demais. E fico triste que isso tenha acontecido: era para incomodarem o Malafaia, o Feliciano, o Bolsonaro e todos aqueles deputados ridículos que fazem audiências públicas com ex-gays, nunca a ti.

Outras pessoas fizeram críticas diferentes ao colorido compartilhado aos milhares: disseram que comemorávamos uma coisa dos Estados Unidos, quando decisão semelhante do STF foi pouco comemorada, ou que só botamos as cores do arco-íris porque o Facebook disponibilizou um aplicativo, e confesso que isso até me incomoda um pouco, mas sempre penso para que moinho vai a água: se é para o do bem, estou junto.

Mas não foram essas objeções que te moveram. Te incomodaste de verdade com a solidariedade homossexual e achaste nas crianças famélicas de algum lugar da África a desculpa para externalizares teu desconforto. Podias até ter ficado quieto, na tua, mas não conseguiste deixar de te manifestar.

Sinceramente, acho que precisas de ajuda. Tem um vídeo curtinho do Dráuzio Varella sobre o assunto. Sugiro que assistas e prestes atenção, principalmente para a parte final.

No mais, peço de novo desculpas pela sinceridade, mas de que serviria a amizade se não fosse para dizer essas coisas?

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