Quase sérios

Mas isso que tu disse é muito sério.” Foi a recriminação que ouvi quando, ao escrever Matemática aplicada, classifiquei o texto como quase sério.

Bem, preciso me explicar. Quando pensei em fazer um blog, e me deparando com a possibilidade de classificar as postagens, quis fugir do fatídico cultura, economia, política, direito, etc. Pensei que duas classificações me seriam suficientes: mais sérios e quase sérios; seria uma boa maneira de me orientar nos meus textos bissextos.

Só não expliquei o motivo dessa classificação nem o critério de distinção. Então, ao esclarecimento: pretendo, de regra, falar coisas sérias sem ser tão sério; nada de formalidade literária: quero brincar com as palavras. E a distinção entre mais sérios e quase sérios está menos no assunto tratado e mais no modo como o trato: onde as ironias e as metáforas derem o tom, o texto será quase sério; onde rarearem, será mais sério. Nunca absolutamente sério, porque, para não dar causa ao epitáfio dos titãs, já não quero ser assim.

Claro que já ampliei o leque de possibilidades, ao classificar de pouco sério o texto Colorindo. Pouco sério, porque falo de colorir o blog, o que inclusive deu causa a comentário acerca da influência de Freud. Se Freud pegou, não sei, mas o certo é que não posso impingir aos leitores um texto desses e lhe conferir alguma seriedade.

E hoje me dei conta de que devo ampliar ainda mais as classificações, para incluir os textos nada sérios.

Vinha eu pensando que de algum modo deveria prosseguir no assunto inaugurado na Matemática aplicada, e falar da população carcerária brasileira, que em números absolutos já é a terceira do mundo e em números proporcionais à população, se considerados os grandes países, só perde para a indecente média americana, quando tomei conhecimento de uma mensagem remetida pelo Whatsapp.

A mensagem, que circulou entre pais de alunos de um conceituado colégio, desses que preparam os filhos da classe média alta para ingressar na universidade pública, dizia o seguinte: “Aviso sério… A partir de amanhã teremos cerca de 37 mil presidiários na rua graças ao indulto do dia das mães… Redobrem a atenção na rua com assaltos entre outros… Repassem para outros grupos e familiares.”

Puxa, eu nem sabia do indulto do dia das mães; talvez fosse saída temporária, mas dá na mesma, e alguém teria de explicar para esses pais que indulto, saída temporária, progressão de regime, liberdade condicional e outras coisas que já esqueci fazem parte do sistema, sempre acontecem, coisa que vem de longe, desde muito antes de os petralhas chegarem ao poder.

Claro que não poucos desses presos vão cometer crimes, e se for saída temporária muitos não vão voltar, mas não se preocupem os pais de alunos desse colégio chique: os que saem numa ocasião dessas formam um número ínfimo perto dos assaltantes que já estão soltos, aí incluídos os trombadinhas, os que assaltam a mão armada, os sonegadores, os corruptos, etc.

Também não precisam temer que as cadeias se esvaziem e deixem de cumprir seu importante papel social: tenham certeza de que elas continuarão superlotadas e que nos próximos anos teremos cada vez mais presos.

Só não podem desejar que eles nunca saiam: as penas progridem, expiram e os presos saem, muitas vezes pelo indulto. E não dá para ser diferente: ainda não temos prisão perpétua no Brasil.

Tá, mas eu falava do grau de seriedade dos textos, pensei que ia dizer coisas nada sérias, e agora estou em dúvida sobre a classificação: já acho que é um texto que tem alguma seriedade, embora pensasse em sugerir a esses colégios a adoção de um currículo mínimo de cultura política, para assegurar que, além de passarem no vestibular, seus alunos não se tornem tão toscos como seus pais. É Belchior, sempre presente.

E, já que falei nos Titãs e em Belchior, resolvo minha dúvida sobre ser ou não sério este texto apelando para Billy Blanco: “o que dá pra rir dá pra chorar, questão só de peso e medida”.

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3 comentários em “Quase sérios

  1. Dr. Pio, na grande maioria das vezes a ironia e a quase seriedade são as melhores saídas. Adorei sua idéia de que deveriam haver aulas de cultura política. Estamos precisando mesmo.
    Abraço. Luciana

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