O mais admirado do sul global

Não que esteja evitando pensar ou falar em assuntos brasileiros nessas semanas fatídicas, mas a necessidade de contenção, a proibição legal de fazer certas abordagens, me desestimulam e sugerem que me dedique a outros assuntos.

Nada melhor, então, que ler sobre assuntos internacionais. Quem manda no mundo?, de Chomsky, é uma boa pedida.

Chomsky – sabemos bem – desnuda o poder dos Estados Unidos, mostrando, com riqueza de detalhes e informações, toda a ambição imperial que se esconde sob a imagem messiânica de nação predestinada a zelar pela democracia no mundo.

A cada página que avança, revelam-se as guerras de conquista em nome da democracia, primeiro para formar o próprio território nacional, com o genocídio dos índios e a conquista de territórios mexicanos; depois com a transformação do continente americano em quintal, com base na doutrina Monroe; por fim, com a hegemonia mundial, meticulosamente preparada, a partir da Segunda Guerra Mundial.

Para isso, nunca vacilou em, mesmo conjugando o discurso da democracia, apoiar as mais sanguinárias ditaduras, quando aliadas, e derrubar governos legítimos, quando não se submetiam à sua tutela. Os exemplos são infinitos, e vão desde Cuba (muito antes de Fidel), passando por milhões de mortos no sudeste asiático, até Israel, talvez o exemplo mais claro de Estado terrorista que se sustenta embaixo do manto protetor dos Estados Unidos.

O propósito expresso do livro é o de analisar o jogo de poder mundial. Sustenta Chomsky que há uma gradual perda de poder por parte dos Estados Unidos, embora a tendência seja de ainda permanecerem por longo tempo como sua maior potência.

Em certo momento, discorre sobre as alternativas de poder global. Não com força para apearem os Estados Unidos, mas para servirem como elementos tensionadores, relativizadores do seu poder absoluto. Fala, evidentemente, da Rússia, da Europa, da China. E fala também do Hemisfério Sul, aí novamente destacando a China, mas lembrando do papel relevante da Índia e também do Brasil.

O Brasil aparece no livro como protagonista que se impôs ao mundo, passou a ser ouvido e se tornou interlocutor importante no concerto mundial. Estou na metade do livro, e vi duas referências ao Brasil.

Minto: há uma terceira, que menciona iniciativa de grande envergadura dos Estados Unidos, ao patrocinar o golpe de 1964, mas aí estamos em outro momento histórico, na parte em que descreve aquele criminoso histórico intervencionista.

Limito-me, por isso, às duas outras alusões. Na primeira, referindo-se ao Brasil como país mais admirado no sul global, mencionou o fato de, verbalizando posição dos países não alinhados, ter votado contra a adoção de sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU, num momento em que aquele país era acusado de ameaça à estabilidade, acusação bem traduzida por Chomsky como negativa de submeter-se às exigências estadunidenses.

Na segunda referência, num contexto em que afirmava o engodo da posição americana de mediador no conflito palestino-israelense, por sua ostensiva proteção a um dos lados, sempre em veto à posição da grande maioria das nações, disse que negociações sérias teriam de ocorrer sob os auspícios de uma parte neutra, de preferência que imponha respeito internacional, aí sugerindo o Brasil.

Me espanto: tento me distrair do Brasil, e Chomsky me diz isso? Por que diz, se o Brasil ocupa um lugar simplesmente ridículo na política internacional? E, no entanto, Chomsky escreveu isso há pouquíssimos anos, bem menos de uma década.

Penso, então, em como uma mudança interna num país da envergadura do Brasil pode interferir na política internacional; no que significa para o mundo termos passado, como num passe de mágica, de importante articulador de uma política multilateralista para um subserviente feitor das mais perversas diretivas do neoliberalismo, tanto internamente, com o desmantelamento da legislação social, quanto externamente, com a escandalosa entrega do patrimônio nacional.

É coincidência refletir sobre essas coisas enquanto leio um livro que trata do poder imperial dos Estados Unidos: sei que muitos sustentam, às vezes com a apresentação de fortes evidências, que o que vem acontecendo no Brasil foi engendrado nos Estados Unidos, mas ainda não me debrucei sobre isso.

Talvez seja, talvez não, mas o que Chomsky mostra com toda a clareza é o modo como se exerce o poder internacional, para o qual a palavra democracia nada mais é que um invólucro que reveste as mais perversas ações. Nada que já não se soubesse, mas o impacto é maior quando se é defrontado com relato assim detalhado.

Evidentemente, nada disso muda no âmbito interno dos países, e a regra é a mesma: os amigos devem ser prestigiados; os títeres, que fazem os piores serviços, estimulados enquanto são úteis e descartados quando já não servirem; e os inimigos devem ser destruídos tão logo isso se tornar possível.

É o que acontece no mundo, é o que acontece no âmbito interno das nações.

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2 comentários em “O mais admirado do sul global

  1. Li novamente seu artigo. A primeira no face. Meu pai – Leo Petersen Fett – foi meu professor de história e política, entre tantas outras coisas. Faleceu e nao somente fiquei órfã do amor paterno, como também do professor. Quando li o texto, foi como se ele estivesse vivo, conversando comigo, pois o alinhamento e sinergia com o que ele pensava foi total. Lembrei também do meu sogro com quem eu muito conversava nos seus últimos anos de vida. Certa ocasião, nos idos do ano 2000, perguntei-lhe das origens do território estadunidente. Lembro muito bem do olhar maroto que me olhou, na sequencia contente em me contar novidade, me levou à sua biblioteca, abriu um livro grosso e antigo no qual estava o mapa dos EUA, colorido, com todas as aquisições de território, datas, origens, etc. Assim, fiquei sabendo de uma forma culta e não acadêmica, uma parte feia da história dos nossos irmãos americanos do norte. Gostei muito do artigo.Virginie

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