Nossas façanhas

São um estorvo os lanceiros negros, uma mancha no brasão rio-grandense, que diz liberdade, igualdade, humanidade. É quase automático, e penso com dor, não com ironia: sempre que chega aquela parte do hino que expressa a nossa peculiar modéstia, lembro de Porongos.

Diferentemente do que aconteceu a Sepé Tiaraju e aos guaranis das Missões, massacrados porque nosso time perdeu para o inimigo – não vem ao caso que muitos dos invasores de então tenham depois se tornado gaúchos – os lanceiros negros, que eram do nosso time, foram entregues de bandeja ao inimigo.

Quando dizemos, como Sepé, esta terra tem dono, usamos sua frase como nossa, dizemos que os donos somos nós, os gaúchos, como o foi Sepé. Isso faz parte do nosso imaginário, e dizemos com convicção, mesmo que não incluamos na fala os guaranis das beiras de estradas. Já com os lanceiros negros não podemos fazer isso, não podemos nos apropriar, porque sua lembrança nos acusa e insiste em dizer que há algo errado com nossa história.

Por isso, chamar de lanceiros negros a ocupação, para fins de moradia, de um prédio público abandonado no centro da cidade significou bem mais que dizer que faltam habitações, que muitos pobres não têm onde morar e o Estado precisa cuidar disso. Significou dizer que os escravos guerreiros a quem prometeram a liberdade antes de entregá-los desarmados a Caxias deixaram herdeiros, que, como eles, não receberam sua parte do quinhão.

Sim, há aqui assombrações dos lanceiros negros, que se negam a, escondidas na invisível periferia, viver e morrer seu destino desde sempre escrito, e por isso vieram ao burburinho do centro dizer que exigem ser incluídos. Só que, na falta de políticas públicas de inclusão, o que resta para eles é o mesmo de sempre, a repressão. Afinal, o prédio é do Estado e precisa ser reintegrado.

Portanto, nada de lanceiros negros. Depois disso, o que mais virá? A retirada da Estação da extinta Fepagro, em Maquiné, dos descendentes de Sepé Tiaraju, que lá fizeram sua retomada de terras? Provavelmente.

Sim, esta terra tem dono. E não são os lanceiros negros nem os guaranis. No mais, seguiremos servindo de modelo à Terra.

A imagem do lanceiro negro é de Vasco Machado.

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4 comentários em “Nossas façanhas

  1. Um magistrado que drena do erário trinta vezes o salário mínimo (além de auxílio isento de impostos para pagar sua própria moradia) ordena que as forças do Estado expulsem setenta famílias que não possuem moradia… Que belo senso de justiça! Possivelmente lhe valerá uma medalha, uma insígnia, quiçá uma promoção pelo exemplo de fidelidade canina aos interesses oligárquicos.

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