Indecência

As notícias vieram sem muito destaque. Na verdade, começaram mesmo como seminotícias, apresentadas na condicionalidade do futuro do pretérito composto teriam sido.

O teriam sido continuou por vários dias, depois, aos poucos, sem alarde, mudou par foram. Não é mais os índios flecheiros teriam sido mortos; já se dá como certo que foram mesmo mortos por garimpeiros. Não há corpos, não se sabe o número, fala-se genericamente em mais de vinte.

Há também notícias de que, há alguns meses, não longe daí, entre 18 a 21 indígenas da etnia Warikama Djapar foram mortos a mando de um produtor rural.

Os flecheiros e os Warikama Djapar são índios isolados e foram mortos em terras indígenas pelos predadores da Floresta Amazônica.

Os piores massacres indígenas ocorridos desde a Ditadura Militar coincidem no tempo com a redução da FUNAI à inoperância por brutais cortes orçamentários e com as propostas oficiais de entrega de grandes áreas da Amazônia à mineração.

O genocídio indígena não é determinado por um decreto presidencial: ninguém manda matar índios por decreto. Ele é apenas um subproduto de uma política colonizadora, efeito colateral da exploração cada vez mais intensa, oficial ou tolerada, da Amazônia, que, além de dizimar os indígenas, agride a fauna e a flora e reduz ano após ano a área da Floresta Amazônica.

Bois, soja, minérios: a Amazônia é uma fonte de riqueza incalculável a ser apropriada, partilhada, vendida, entregue. Pode ser por políticas oficiais, pode ser por omissão do Governo, que é apenas mais um modo de fazer política.

Mais índios vão morrer, mais árvores vão tombar, e não ouço nenhum clamor.

Queria muito que as pessoas se mobilizassem para acabar com essa indecência.

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