Fronteiras

Quem defende os palestinos é antissemita? As duas coisas se confundem? Onde começa uma, onde termina a outra?

O antissemitismo vem de muito longe, mas se acirrou no final do século XIX. Para isso, somou-se um conjunto de fatores, entre os quais o antiquíssimo preconceito religioso, que acusava os judeus pela morte de Cristo; o fato de formarem um grupo estranho, com frequência inclusive no plano linguístico, num período de formação das nacionalidades, em que a afirmação do grupo nacional pressupunha distinguir-se dos outros e afastá-los; sua responsabilização pelas crises econômicas, embora, a despeito dos ricos financistas, a grande massa judaica fosse mais pobre que a maior parte da população. Estavam dadas as condições históricas nas quais se criou o caldo de cultura para os pogroms, a perseguição crescente e, ao final, o holocausto.

Historicamente segregados (por opção ou imposição), os judeus, que não tinham sua nação e na grande maioria não a aspiravam, em muitos casos vivendo um forte processo de assimilação, principalmente nos países ocidentais, foram varridos pelo cataclismo da Segunda Guerra: os que não morreram restaram deslocados em suas pátrias de origem, num mundo que já não era aquele em que cresceram e onde não havia lugar para eles.

O movimento sionista, desde sempre minoritário, cresceu num contexto em que, primeiro, oferecia uma identidade nacional a um povo* perseguido e escorraçado; depois, obteve o apoio das potências ocidentais, para as quais era muito mais conveniente largar multidões de desvalidos indesejados numa terra que não lhes interessava do que lhes oferecer acolhida em seus próprios territórios.

O mito da terra prometida, embalado por visionários com uma causa improvável, encontrou na tragédia a oportunidade histórica de sua realização.

No processo, ocorre uma total transformação no etos judeu, que passa de oprimido e escorraçado a dono de sua própria terra, no meio do deserto. Mas o deserto não estava vazio, havia nele um povo que, embora sem soberania, ocupava a mesma terra desde tempos imemoriais.

Então ressurge com força o mito bíblico, e quem até ontem era oprimido agora sopra as trombetas em direção a Jericó, não lhe importando quem lá esteja.

A história do Estado de Israel é a história do oprimido que se torna opressor, com tudo o que lhe é próprio, como a contínua expansão das fronteiras, o deslocamento e isolamento dos nativos, o autismo prepotente de quem ignora os apelos do mundo, confiante só no seu poderio militar e no incondicional apoio dos Estados Unidos.

Nesse processo, duas gerações são suficientes para mudar o modo de pensar de um povo, e os kibutzim originais somem no mesmo ritmo em que rareia o voto em propostas mais solidárias, próprias da consciência que grande parte do imigrantes trouxe da Europa das convulsões sociais.

Também a percepção do mundo muda, e a solidariedade a um povo que foi vítima do genocídio é substituída pela solidariedade a um povo que se tornou vítima das vítimas.

As campanhas de solidariedade aos palestinos, a luta pelo reconhecimento de seu Estado, pela coexistência pacífica e pelo retorno às fronteiras de 1948 não podem ser só de solidariedade a um povo oprimido; são também de condenação a quem o oprime, e isso cria no mundo um sentimento anti-Israel, que se expressa de inúmeras formas, inclusive pelo boicote dos produtos lá produzidos.

Trata-se de um sentimento crescente, embalado pelos sonhos de fraternidade entre os povos (o alle menschen werden Brüder de Schiller), aos quais repugna o opressor, qualquer que seja.

Por outro lado, o antissemitismo não chegou a morrer com o final da Segunda Guerra, e, embora minoritário e estigmatizado, se mantém ativo na extrema direita e de certo modo latente em parcela muito ampla da população, para a qual os valores nacionais justificam a xenofobia.

Coexistem, portanto, a crítica a Israel baseada nos melhores sentimentos de solidariedade e o ódio aos judeus baseado nos piores sentimentos de intolerância.

A grande questão é que nem sempre fica claro onde termina um e onde começa o outro. Entre os judeus, não raro, seja por paranoia, seja por oportunismo, toda crítica é vista como antissemitismo, um eterno retorno ao holocausto.

A presença permanente do holocausto na memória coletiva, absolutamente necessária para evitar que semelhantes coisas se repitam, serve também para uma consciência de vitimização, utilizada como argumento de defesa mesmo quando se critica a prepotência de Israel contra os palestinos.

Mas o risco de confusão existe.

O que é antissemitismo? O que não é? Não é absurdo imaginar que o que nasce como um argumento em defesa dos palestinos possa degringolar para o preconceito contra os judeus; do mesmo modo, o antissemitismo pode se alimentar do discurso de solidariedade aos palestinos para se fortalecer.

Onde acaba um, onde começa o outro? É importante termos todos claro o problema, para evitar que irrefletidamente nossos melhores sentimentos sirvam de combustível para os piores preconceitos.

E é importante ter claro que os critérios de distinção devem se basear em valores éticos consolidados de humanidade, não comportando ampliações, como as das fronteiras do Estado de Israel.

Escrevo num momento de polêmicas, em que se discute se Caetano e Gil devem cancelar apresentação em Israel e se foi correto pedido de informação da Reitoria da UFSM sobre a presença de israelenses entre seus alunos e professores.

*Uso o vocábulo povo por falta de outra ideia, mesmo conhecendo a consistente crítica de Shlomo Sand em A invenção do povo judeu.

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