Fechando o círculo

São milhares de horas gravadas, muitos milhares de páginas. A maior parte não é pública, e o que, lícita ou ilicitamente, se tornou público, é impossível de ser analisado em sua integralidade. Mesmo um jornalista investigativo, que ponha todo o seu tempo a pesquisar o que há, terá dificuldades. Isso significa que nós, destinatários das informações, ouvintes e leitores ocasionais das notícias, temos de nos contentar com o que nos é selecionado por outros.

Não sei o número de delatados dessa delação que, apropriadamente, vinha sendo chamada de delação do fim do mundo, mas sei que dá um terremoto: há delatados de todos os lados, de tubarões a bagrinhos, de gente que recebeu contribuição de campanha e gente que recebeu propina mesmo, gente que recebeu em caixa 1, gente que recebeu em caixa 2 e usou na campanha, gente que recebeu em caixa 2 e separou pra si, até gente que nada recebeu. Além disso, escancara-se de modo inédito uma sistemática de privatização do Estado, que vem de muitos anos.

Por outro lado, a profusão de informações e as distorções da grande mídia produzem, como de hábito, desinformação e conclusões rebaixadas no senso comum, a começar pela definição rasteira de que a política é uma atividade praticada por ladrões. Ao dar a entender que é todo mundo igual, não só joga um véu de fumaça que impede a melhor identificação dos principais responsáveis, como gera um vazio na cidadania, uma descrença no exercício da política e seu abandono.

Essa compreensão permite ocultar a sistemática – ou sistêmica – privatização do Estado pelo grande capital, seja pela via do financiamento de campanha, seja pela corrupção direta e escancarada, voltada inclusive para a própria produção legislativa, como revelam as delações da Odebrecht. Para ver que é um fenômeno sistêmico, basta prestar atenção a algumas habituais notícias, que apenas se esboçam e logo saem de pauta, como os repetidos escândalos que vêm do CARF, onde grandes corporações poupam bilhões ao se livrarem de impostos sonegados.

Se, por ora, estamos diante de meras delações, e há todo um processo investigativo pela frente, até o recebimento – ou não – da denúncia e a final condenação – ou não – de cada um dos acusados, as informações são de qualquer maneira suficientes para escancarar o modo como o grande capital – e não só a Odebrecht – opera em relação ao Estado.

E o irônico é que mesmo o processo que escancara a corrupção tem servido para que o capital avance ainda mais sobre o Estado. O programa Uma ponte para o futuro, lançado por Temer em novembro de 2015, como projeto para o governo golpista que se sucederia, veio com um viés neoliberal e privatizante, de retirada de direitos aos cidadãos e de entrega do patrimônio público.

Embora, não havendo acusação contra Dilma, tivessem adotado como mote para a sua derrubada as falaciosas pedaladas fiscais – nesse ponto, Temer foi mais sincero, ao dizer que Dilma caiu por não aceitar seu programa –, toda a mobilização popular se deu com um discurso que facilmente soube instrumentalizar o ódio a quem promovia inclusão social para canalizar o combate à corrupção em vetor único contra o PT e o governo*.

Mesmo que a grande mídia, em particular a Rede Globo, compreensivelmente continue focando seu discurso no PT e em Lula, hoje as pessoas de boa fé e algum discernimento percebem que o fenômeno é generalizado. O que talvez falte a muitos, ainda presos a um ódio de classe que os cega para uma visão desapaixonada, é perceberem como o golpe serviu aos mesmos propósitos e em benefício das mesmas corporações que sempre fizeram uso da corrupção.

É claro que alguns setores do capital pagarão o pato. Principalmente as grandes empreiteiras, com destaque à Odebrecht, sairão do processo menores, quando não quebradas, como efeito colateral do processo. A propósito, há que se destacar a fala desmistificadora do patriarca Emílio Odebrecht, não só quando revela sua associação com a Globo para quebrar o monopólio estatal da telecomunicação e do setor petrolífero, como quando se diz inconformado com a imprensa, que sempre soube dos esquemas e silenciou.

O notável é que, criada, por iniciativa dos perdedores de 2014 e liderada pela grande imprensa, uma coalizão que derrubou, em nome do combate à corrupção, uma presidente contra a qual não se identificou nenhum ato dessa natureza, foi alçado em seu lugar um presidente apontado como chefe de esquema, que compõe um ministério contaminado pela corrupção e desenvolve as ações de governo desejadas pelo capital que contamina o Estado.

Se o governo nasceu ilegítimo pelo golpe e hoje sua ilegitimidade se ratifica pela corrupção alojada em seu núcleo, e se no próprio Congresso Nacional há tantos parlamentares delatados, a investidura formal nos cargos já não consegue ocultar a total inaptidão para legislar, em especial quando se trata de retirar direitos da cidadania, em benefício das grandes empresas que das mais variadas maneiras patrocinam os governantes.

Mas o pior não é o fantasma político do governo ainda presente, que teima em fazer esse trabalho; o pior é o que poderá emergir do esvaziamento da política pela desilusão, pela ideia de que ela é área de atuação de criminosos. Este é palco ideal para o surgimento dos messias não políticos, que geralmente servem como os piores desmontadores de um Estado que cumpra a dupla função de sustentar a economia e redistribuir a riqueza.

Se isso acontecer, estará fechado o círculo, e o combate à corrupção terá servido de instrumento para atingir os objetivos com que ela era utilizada.

* Quando o movimento golpista recém iniciava, escrevi Os protestos, o PT e a corrupção. Dois anos depois, talvez fosse acrescentar alguma ideia, mas dificilmente alteraria o conteúdo. De qualquer maneira, isso seria assunto para outro artigo.

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