Charada ética futurista

Imagine-se o leitor em algum lugar do futuro. Não semana que vem, não ano que vem, mas em tempo suficientemente próximo para que sirva de testemunha – se preferir, protagonista, provavelmente vítima – dos fatos que serão relatados.

O grande, inesperado e trágico evento surpreende o mundo. Não que devesse surpreendê-lo, porque nesse tempo que virá o polo norte derreteu, os verões se tornaram tórridos e grandes cataclismos tem causado mortes e destruições.

Sabíamos que algo de ruim poderia acontecer, mas como abrir mão de um PIB crescente, como deixar de nos embriagar com combustíveis fósseis? Ademais, somos otimistas e sabíamos que a humanidade sempre encontra solução para tudo.

Mas, eis que, após anos de safras decrescentes, vem o anúncio oficial, chancelado pelos mais renomados cientistas: está em curso um colapso agrícola, e em dez anos a produção mundial não será suficiente para alimentar metade da população do planeta. A situação é tão grave que mesmo os que, por temperamento ou interesse, sempre disseram catastrofistas as predições sombrias agora concordam com o diagnóstico.

Após uma resistência inicial, os governantes do mundo também se convencem do prognóstico. Realizam-se reuniões de emergência dos organismos democráticos que pouco valem e reuniões ministeriais dos governos que tudo decidem.

Os alimentos somem das prateleiras, os preços disparam, a fome aumenta, os ódios se acirram, os países se armam, mas nada do que aqui se diga poderá de perto descrever o caos criado.

Muitos se resignam, outros redescobrem fés perdidas ou adotam novas fés, que respondem às novas dores. Multiplicam-se os templos da Religião do Tempo Final, que relê o Apocalipse e elege como profetas Nostradamus e Malthus.

As cidades se esvaziam e por todos os lugares se acelera o êxodo para o campo, na esperança da sobrevivência pelo cultivo do próprio alimento. O preço da terra dispara. Dispara também a grilagem, e novos bandos de sem-terra, de um tipo diferente, com conta no exterior, tomam para si novas áreas e derrubam mais árvores. Do mesmo modo, dirigem-se ao campo bandos mafiosos agora especializados em tráfico de grãos, os fazendeiros armam brigadas de defesa, e não há força pública para evitar uma guerra entre grupos armados.

Por desespero ou altruísmo, multiplicam-se os suicídios; por desespero ou egoísmo, aumentam os homicídios; nenhum desses fenômenos contribui para a necessidade de drástica redução da população, só para a proliferação da barbárie.

Antes de eles próprios sucumbirem, os Governos impõem leis marciais e intervêm com energia nos conflitos.

Mas há um consenso: em dez anos, cinco bilhões de pessoas terão morrido.

Em meio ao caos, o Mundo discute o que fazer.

Forma-se um grande partido internacional, Vida e Liberdade, resultado da sagrada aliança entre crentes da mão invisível e crentes dos desígnios divinos, que defende a não intervenção, com base na ideia de que Deus cuidará das vidas e o Mercado achará a melhor solução para a crise. Otimista, o Partido tem a convicção de que tudo se resolverá, desde que o homem não se indisponha contra as lei imutáveis de que é guardião, até porque nada comprova que a fome de fato virá.

No outro extremo, grupos autonomistas, com concepções anarquistas, defendem a criação de pequenas comunidades de algumas centenas de pessoas, os núcleos da sobrevivência. Sua convicção é a de que a degradação da Terra é inevitável, muito mais pessoas estarão mortas em dez anos e em cinquenta a maior parte das espécies, incluindo a humanidade, estará extinta. Os Sobreviventes, como se denominam, preconizam a construção de abrigos subterrâneos, onde será possível sobreviver a partir do cultivo de fungos.

Enquanto o Parlamento Internacional se alvoroça, os Governos do Mundo, refletindo o otimismo inato dos políticos, tratam de dizer que tudo está sob controle. Mas todos sabem, e os Governos melhor que ninguém, que o discurso de tranquilidade não corresponde à realidade. A fome não virá de supetão: ela já se instalou, e desde logo são definidas rações máximas por pessoa, em patamares bem mais modestos que as recomendações nutricionais de outrora. Criam-se novos tipos penais: tráfico, consumo excessivo, desperdício ou ocultação de alimentos passam a render penas pesadas.

Muito mais do que coordenar a produção, distribuição e consumo dos alimentos, os Governos precisam definir como farão com o excesso populacional.

O leitor deve ter percebido que neste momento de que tratamos não mais se pode falar em civilização, pelo menos não como a conhecemos hoje. Direitos constitucionais pertencem a um mundo idílico, tão próximo no tempo, tão superado pela realidade.

E o principal direito de todos já não é garantido: se cinco bilhões de pessoas vão morrer, como dizer que a vida é um direito? A questão é decidir se, como pretende o Vida e Liberdade, as mortes se darão em decorrência do darwinismo social purificador, em que Deus e o Mercado assegurarão a sobrevivência dos mais capazes.

Os Governos discordam: para evitar a distopia total, para assegurar a continuação da espécie, para permitir que exista uma nova civilização, construída sobre os escombros daquela que se considerava eterna, deve-se planejar quem são os cinco bilhões que morrerão.

Uma primeira medida é preventiva e não tem a ver com a morte: é necessário não deixar nascer. Em dez anos, ao natural morrerão um bilhão de pessoas, a maioria porque cumpriram o ciclo da vida, muitas em razão das adversidades dos novos tempos. Assim, se não houver nascimentos, um quinto do problema se resolverá ao natural.

Mas esta não é uma solução: a proibição total dos nascimentos causará de outro modo a extinção da humanidade, e a decisão é a de que, a cada dez casais, um pode ter um filho. Assim, em dez anos nascerão duzentos milhões de pessoas. Contando um bilhão que morrerá de morte, digamos assim, natural, haverá uma redução de 800 milhões na população.

Os outros 4,2 bilhões deverão morrer por critérios definidos pelos Governos, única maneira de evitar seja a totalidade da população submetida à fome, morte por inanição e ao risco de barbárie total.

Esta é a grande questão. E a medida não pode esperar dez anos: já hoje não há alimento para muitos e em muitos lugares se multiplicam as mortes.

Quem deve morrer para salvar a humanidade? É o que se debate no Parlamento Internacional. Embora ninguém discorde de que o sacrifício deve ser distribuído, todos buscam soluções que lhes sejam mais favoráveis: os países ricos consideram que sua contribuição econômica e tecnológica, fundamental para a salvação da humanidade, impõe tenham seus cidadãos tratamento privilegiado; os países menos afetados pela crise climática defendem que seus cidadãos sejam preservados em maior número, porque continuam autossuficientes em alimentos e até fornecem a sobra aos demais países; outros, com variados motivos, defendem sua população, seja porque desenvolveram projeto de poupança alimentar que permite a sobrevivência com consumo menor, seja porque já haviam adotado antes programas de redução da população, seja porque entendem que devem ser mais penalizados os países cuja contribuição para o aquecimento global foi maior.

Da polarização desse debate surge o risco de uma guerra planetária, defendida por muitos, principalmente nos países melhor armados, como um modo garantido e eficaz de redução da população, talvez até a um número menor do que os cientistas consideram necessário. Seria a salvação pelo morticínio, a terra arrasada como numa queimada, depois da qual surgirão os brotos verdes da perpetuação da espécie.

Mas esta solução seria nada mais que a antecipação da barbárie, e segue a tentativa de solução consensual, para a qual surgem propostas a serem aplicadas universalmente. Uma delas é a de que o sacrifício seja decidido por sorteio, proposta que também valeria para definir a quota da natalidade.

Embora reconheçam essa posição como mais democrática, outros entendem que a gravidade da situação exige sobrevivam os que melhor podem contribuir para a salvação do mundo. Isso imporia o sacrifício prioritário dos idosos e dos doentes terminais.

Entre os que defendem essa proposta, há uma corrente extremada, formada pelos neoeugênicos, para a qual, como modo de consolidar uma humanidade adaptada aos novos tempos, resistente à fome e às intempéries, devem ser sacrificadas as pessoas mais frágeis e mantidas as que forem aprovadas em testes de sobrevivência. Entre os integrantes dessa corrente, estão também os que defendem o sacrifício de todos os que tenham alguma vez sofrido condenação criminal, tenham diagnóstico de doença mental ou doenças transmissíveis, tenham doenças congênitas ou limitadoras, sejam dependentes de drogas ou do serviço social ou tenham quociente de inteligência baixo.

A pena de morte é imediatamente aprovada para todos os crimes que antes previam pena máxima de cinco anos: embora o resultado tenha efeito mínimo para a redução populacional, sempre contribuirá com alguma coisa. Junto com essa aprovação, surge um novo fenômeno, a delação, amplamente disseminada, que passa a ser meio de prova suficiente para a condenação.

Outra proposta em discussão é a do bônus sobrevivência, pelo qual pessoas selecionadas para o sacrifício possam ser poupadas. Não há dúvida, por exemplo, de que devem ser preservados os que notoriamente podem contribuir para salvar a espécie, como pesquisadores e inventores, principalmente na área de clima, alimentos, doenças, abrigos, em suma, os que possam contribuir para o desenvolvimento de uma tecnologia da sobrevivência. Mas a formulação dessa lista é objeto de polêmica e tentativas de ampliação, e lóbis associativos das mais diferentes e improváveis profissões se empenham em incluir emendas legislativas que as reconheçam imprescindíveis nessa crise.

Há ainda outras propostas de ampliação da lista, como o reconhecimento por serviços prestados, a comenda sobrevivência, ou a compra do bônus sobrevivência, com a destinação dos valores a um fundo público. Também é sugerido um banco de venda, pelo qual pessoas não escolhidas para o sacrifício possam vender sua vida em troca de valores destinados a seus herdeiros, com a garantia de que serão poupados.

Enquanto isso, mesmo não aprovada oficialmente, a venda de vidas se torna um grande negócio no mercado negro. E, como sempre, há notícias de falsificações, algumas em que a venda é feita por pessoas que já morreram e outras em que é inserido falsamente no contrato o nome de pessoas vivas.

Esta é a situação no momento em que encerro meu relato. O Parlamento Internacional tem muito a discutir, e não se sabe como a questão será resolvida. O certo é que nós dois, eu que escrevo, você que lê, estamos contemplados pelo critério etário. Será nossa contribuição para a sobrevivência da espécie.

Acredito que todos tenhamos, em maior ou menor grau, alguma preocupação com as mudanças climáticas. Sabemos que há um processo acelerado de aquecimento do planeta, mas não fazemos a menor ideia de como será o mundo dentro de algumas décadas. Pensei esse texto (uma viagem), concebido a partir de uma hipótese pessimista, como um desafio aos jusfilósofos (talvez todos sejamos um pouco), mas confesso que pouco tenho a contribuir para a decisão do Parlamento Internacional. Se o leitor tiver uma ideia, talvez saia daí um interessante debate.

Mas o texto também pode ser visto como fábula, e cada um escolha sua moral para a história. Escolho esta: se hoje tens uma civilização, segura bem, porque amanhã podes não ter nenhuma.

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3 comentários em “Charada ética futurista

  1. Pio Giovani,
    Adorei a sua resposta à “moça”, através do seu amigo.
    Esse tipo de comentário, como este seu, é o que me faz ainda participar das redes sociais.
    Está difícil ver tanta crítica banal, tanto comentário sem fundamento, tanto “post” compartilhados sem que se saiba direito do que se trata.
    Mas também é o retrato da nossa sociedade, a ser escancarado nas redes.
    Parabéns pelo texto e pela consciência social que vi nele e através dele em vc.
    Um grande abraço.
    Cecilia

  2. Parecido com o “Intermitências da Morte”, de Saramago, na qual a morte faz greve e a decisão recai sobre como dar fim aos que já deveriam ter morrido…
    Fábula ou visão, este é o momento que estamos vivendo. Poucos querem decidir sobre todos, desde que eles não estejam incluídos nos ‘descartados’. Mais, o próprio nunca ‘peca’ ou faz errado. Os que decidem podem tudo, desde desperdiçar alimento, gastar água/luz em excesso e ‘ter’ muito, pois é preciso para sua sobrevivência.
    Jusfilósofa de meu mundo, penso que estes ‘poucos’ deveriam olhar para si (alguns conseguem) e tentar ser a diferença. Assim, vão poder ser espelho para aqueles ‘todos’.
    Fácil é falar, difícil é fazer.
    Difícil, mas não impossível…

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