Indecência

As notícias vieram sem muito destaque. Na verdade, começaram mesmo como seminotícias, apresentadas na condicionalidade do futuro do pretérito composto teriam sido.

O teriam sido continuou por vários dias, depois, aos poucos, sem alarde, mudou par foram. Não é mais os índios flecheiros teriam sido mortos; já se dá como certo que foram mesmo mortos por garimpeiros. Não há corpos, não se sabe o número, fala-se genericamente em mais de vinte. (mais…)

Leia Mais

A flor do jardim

Houve, nas reações ao fechamento antecipado da exposição Queermuseu, uma que me preocupou mais do que o obscurantismo conservador de sempre e o novo fascismo do MBL: a das muitas pessoas verdadeiramente democráticas que, sem se sentirem encorajadas a explicitamente defender a censura, levaram seu discurso para o mal estar diante de algumas obras que consideraram ofensivas. (mais…)

Leia Mais

O ônibus da Paulista

Entrou Janot, saiu o maluco do ônibus. Voltou a grande política e saiu a pequena política do cotidiano das relações sociais, assim satisfazendo quem lamentava o prosseguimento da masturbação. Mesmo assim, não posso deixar de voltar ao assunto, porque vejo nos detalhes que cercaram o evento anterior uma série de implicações que dizem com o nosso pensamento e nossa prática social. O farei na forma de notas. (mais…)

Leia Mais

Overdose

O que tiveram em comum o tsunâmi que atingiu o Sri Lanka e o furacão Katrina, que atingiu Nova Orleans, além do fato de terem sido fenômenos climáticos? Foi a voracidade do mercado, que, ao aproveitar-se do choque causado pelos desastres, removeu pescadores da costa asiática, colocando em seu lugar resorts de luxo, e retirou a população pobre da Louisiana das suas antigas moradias, derrubando também suas escolas e hospitais, para construir condomínios e instituições privadas. (mais…)

Leia Mais

Um dia e outro dia

Parece que foi agendado: um dia a reforma trabalhista, no outro a condenação do Lula. A História acontece agora e a poeira não assentou para que seja contada com cores definitivas, mas a coincidência não há de passar desapercebida a quem fizer, no futuro, a crônica desses dias.

E terá significado muito mais amplo que aquele que lhe possa atribuir quem gosta de contar a História como seleção de fatos pitorescos. Claro que para este será um prato cheio dizer que em dois dias seguidos caíram, primeiro, as bases da legislação de proteção ao trabalhador e, em seguida, o líder das grandes greves operárias dos anos 70, o operário que se tornou presidente. (mais…)

Leia Mais

A hora de morrer

Quando será a hora da morte? Não faço propriamente cálculos sobre isso, mas penso às vezes. Imagino que todo mundo pensa, uns mais, outros menos. E a única certeza que podemos ter é a de que na próxima vez em que pensarmos no assunto teremos menos tempo que agora.

Terrível, a consciência da morte. Convivemos mal com ela, tentamos a vida inteira nos acostumar, e não conseguimos. Não por nada se multiplicaram as religiões e tantos cultivam com esmero a esperança de que haja um depois. (mais…)

Leia Mais

Pode entrar, a casa é sua

Ó de casa!” “Pois não?” “Boa noite, senhora! Um informante disse que nessa casa escondem droga. Viemos verificar. A senhora permite que a gente entre?” “Claro! Entrem sem cerimônia. Só peço que não façam barulho, porque as crianças estão dormindo.” “E o seu marido?” “Está trabalhando, é garçom.” Entram os policiais, meio tímidos. “Os senhores não acham melhor deixarem essas armas em algum lugar, pra ficar mais confortável? Não, do lado do berço não, vai que acordem. Sabe como é criança, vai querer mexer. Melhor deixar aqui na cozinha ou encostar no tanque.” “Obrigado, senhora, muito gentil.” “Mas, fiquem à vontade, não quero atrapalhar. Vou passar um café enquanto reviram as gavetas.” A água nem esquentou, e eles voltam para a cozinha. “A senhora vai ter de nos acompanhar, achamos essas trouxinhas embrulhadas numa calcinha.” “Mas, como? Nunca vi isso!” “É, mas não tem jeito, a senhora está presa. Tem com quem deixar as crianças?” (mais…)

Leia Mais