Intelectuais minerais

Sou de um tempo em que Gramsci gozava de grande fama, muitos carregavam seus livros e alguns até os liam. Na esquerda, evidentemente, porque, como hoje, para a direita ele era um perigoso comunista, esconjurado diante da simples lembrança do nome.

Naqueles tempos gramscianos, esperava-se das pessoas conscientes a capacidade de superar o pensamento abstrato, pensar criticamente o mundo e ter sobre ele uma atuação transformadora, o que as tornaria intelectuais orgânicos. (mais…)

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Tuiuti

Vou caminhar, mais por obrigação com a saúde que por gosto. Começo contornando a alta vegetação, característica das praças porto-alegrenses deste verão, e ouço, do extremo oposto, o som agudo do aparador de grama.

Torço que não estejam perto da pitangueira, para onde programei uma busca às temporonas. É bem lá que estão. Mesmo assim paro, consigo colher três ou quatro, enquanto troco algumas palavras com o que está mais próximo. (mais…)

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Acima da lei

Fui visitar o Datafolha. Queria entender a pesquisa, compará-la com a anterior, ver o que mudou. Contemplei aqueles números espalhados em dezenas de laudas, não sei se os entendi bem, mas concluí que de dezembro a janeiro tudo continuou igual.

Geralmente, nada há de significativo quando as coisas continuam iguais: porque inércia não é acontecimento. Mas aqui, ao menos para os desavisados, havia algo que poderia parecer intrigante: como o candidato recém condenado mantinha a liderança poucos dias após o julgamento do século? (mais…)

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Os juízes de Berlim

A frase tem vindo de vários quadrantes, sempre em tom de exultação: “Ainda há juízes em Berlim.”

Sei, é dessas expressões que se vulgarizam e com isso passam a ter seu sentido diluído. Nesse caso, passou a ser utilizada cada vez que alguém deseja comemorar uma decisão judicial, qualquer que seja.

Quando a conheci, ela ainda não era moda – tanto que não a conhecia –, e a vi num contexto em que quem a utilizou mencionava a corajosa resistência do Judiciário alemão ao nazismo. (mais…)

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Las Casas e García Márquez

Leio, de costas para Torquemada, que da parede oposta me lança seu terrível olhar: Judio, brujo, curandera, solicitante, eran sólo algunos de los calificativos usados para denunciar, juzgar y condenar a quienes se apartaban de la fe católica. Eran esos otros, considerados distintos. Personas desarraigadas de su tierra, pero que lograran traer consigo sus prácticas y conocimientos ancestrales; quienes llegaran por distintos motivos y creencias, todos mirados bajo la misma lupa que condenaba lo diferente.

Assim inicia a explicação introdutória, no primeiro quadro do Museo Histórico de Cartagena de Indias, dentro do Palacio de la Inquisición. Em Cartagena atuou, de 1610 a 1821, um dos três tribunais da Inquisição na América Hispânica, somente fechado por obra bolivariana após a independência. (mais…)

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O punitivista

Evolução da população prisional do RS na proporção por cem mil habitantes. Comentários livres sobre os efeitos na sensação de segurança. A questão foi apresentada por Sidinei Brzuska e serve de provocação aos defensores do encarceramento.

O punitivista empedernido, que dá de ombros a qualquer argumento contra as prisões – afinal, isso é coisa dos garantistas e do pessoal dos Direitos Humanos – dirá distraidamente: mas tem que ver que a população também aumentou. (mais…)

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A falácia do pensamento médio

Frequentemente aparece em debates políticos a alusão ao pensamento médio, utilizada por candidato que pretende se dizer seu representante.

Pronunciada em período pré-eleitoral, a frase pode perder seu sentido se, no momento da eleição, o pretenso representante desse pensamento não se eleger. Nesse caso, e porque construída a fala como se o enunciador fosse representante de um posicionamento majoritário, talvez a conclusão possa ser a de que o pensamento médio era outro, que não o dele. (mais…)

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