A catequese

Fiz a primeira comunhão aos sete anos. Na catequese, tivemos as primeiras noções sistematizadas dos desígnios divinos, e a parte que para mim teve mais interesse – por isso nunca a esqueci – foi a confissão. Ela era, de fato, essencial, porque já tínhamos plena noção do quão terrível era queimar por toda a eternidade no inferno, sendo acossado com o tridente. (mais…)

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O espelho

Uma das primeiras visões matinais é a do nosso reflexo no espelho. Nos miramos e nos reconhecemos, dia após dia, sempre iguais. E nos reconhecemos justamente porque permanecemos iguais. O rosto roto por uma noite mal dormida, as olheiras da farra noturna, o cabelo desalinhado ou a espinha intrusa são pequenos acidentes que não se repetirão no dia seguinte, e continuaremos iguais.

No entanto, mudamos. Um dia descobrimos uma ruga, outro dia os primeiros cabelos brancos, depois que a pele perde o viço. Alguns deixam acontecer, outros aplicam botox, usam tintura, e logo nos acostumamos com a nova imagem do espelho, que no mais muda de modo imperceptível. Esta imagem nos reflete, nos identificamos com ela e, por essa inata e inconsciente capacidade de adaptação, a sentimos perene. Víssemos um dia, tal Dorian Gray, nossa imagem da juventude, não a reconheceríamos como nossa. A ilusão que temos é de não mudança, é de familiaridade com a imagem que o espelho nos mostrou hoje. (mais…)

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A crise e a solidão

Escrevo no momento em que meus vizinhos batem panela e sopram vuvuzela. Me sinto só, como me sinto só entre meus colegas de profissão, na academia e em tantos lugares.

Devo estar muito errado, porque a corrente toda vai para um lado, e me vejo remar contra ela. Me sinto, eu próprio, um malfeitor, porque está todo mundo tão certo sobre os crimes de um único lado, que o simples fato de questionar as verdades hoje inquestionáveis me colocam como aliado do mal.

Mas, como acima de tudo estão minhas convicções democráticas e o meu propósito de ser crítico, o que significa ao menos tentar ver o outro lado, vou marcar minha posição. (mais…)

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A toga

Nunca usei toga. Minha posse, em 1995, foi sem. Nunca recebi e não me fez falta. Lembro que há alguns anos um grupo de juízes pediu que o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul lhes fornecesse toga, e o presidente de então resolveu emitir um ofício circular, oferecendo a veste a quem desejasse. Pouquíssimos pediram. Penso mesmo ser uma peça em desuso em praticamente todas as salas de audiência do Brasil. (mais…)

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Ia escrever sobre vazamentos

Há meses pensava em escrever sobre vazamentos. A ideia foi nascendo lentamente, na medida em que via, ainda em 2014, manchetes bombásticas que na maior parte das vezes não se confirmaram, mas mudaram votos, inclusive de queridos amigos.

Eu os imaginava seletivos, mas não tinha a menor ideia sobre sua origem. Aí li o Fred recuperar um artigo de 2004 do Sérgio Moro, em que, louvando a Operação Mãos Limpas da Itália, dizia que os responsáveis pela operação faziam largo uso da imprensa e a operação vazava como uma peneira. Escreveu Moro naquele já longínquo ano: “Tão logo alguém era preso, detalhes de sua confissão eram veiculados no ‘L’Expresso’, no ‘La Republica’ e outros jornais e revistas simpatizantes. Apesar de não existir nenhuma sugestão de que algum dos procuradores mais envolvidos com a investigação teria deliberadamente alimentado a imprensa com informações, os vazamentos serviram a um propósito útil.” (mais…)

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A fé de cada um

As pessoas acreditam naquilo em que querem acreditar. Usei a frase numa conversa, e minha interlocutora não teve uma reação boa, porque entendeu que eu atribuía à humanidade – e, mais importante, naquele momento a ela própria – uma desonestidade intelectual inata.

Não era isso. Trata-se de um mecanismo inconsciente, provavelmente essencial para a sobrevivência, e já muito conhecido pelas ciências que estudam a mente. Dou um exemplo prosaico: se duas pessoas, uma delas vegetariana e a outra carnívora, dessas que não passam fim-de-semana sem comer um churrasco, se depararem com duas pesquisas, uma associando o consumo de carne vermelha ao câncer e outra associando a falta de consumo de carne à anemia, é quase certo que a vegetariana acredite imediatamente na primeira pesquisa e veja com desconfiança a segunda e a pessoa carnívora duvide da primeira e enalteça a segunda. (mais…)

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O circo e o bonde

Tenho um amigo honesto. Explico: ele não é honesto como me imagino ou como você provavelmente é. Não, ele é muito mais honesto; é dessas pessoas que provavelmente nunca cometeram um pecado na vida, a virtude em pessoa.

Devo dizer que essa sua admirável qualidade lhe traz algumas dificuldades. Uma delas é ver o mundo e as pessoas por essas lentes e sempre acreditar grandeza humana, o que não raro lhe causa frustrações. Obviamente, é um democrata, e, preocupado com o processo de impeachment, veio me dizer que é necessário cuidar para que seja observado o devido processo legal. (mais…)

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As falácias do Impeachment

É meio inevitável a polarização com cores partidárias, mas convém fugir das armadilhas reducionistas, que embaralham conceitos e resumem tudo a uma disputa de poder. Como a questão do impeachment se coloca também no âmbito dos corações e mentes, penso que ao menos as mentes devam se fazer claras, para que não sejam traídas pelo coração.

Não que o coração deva ser ignorado, o que sabemos impossível, ainda mais porque estamos tratando de política, onde 2 + 2 não dá 4, mas ele precisa conseguir dialogar com a mente. Geralmente sabe fazer isso; quem não sabe é o fígado. Mas as mentes podem ser confundidas, com a finalidade de seguirem o coração, ou até mesmo para mudarem os rumos do coração, e é preciso cuidar disso. (mais…)

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