As mulheres de Montevidéu

Plaza Libertad, 18 horas. Era lá o encontro. Chego na hora, mas fico espremido na praça apinhada, brasileiro entre incontáveis uruguaias (e uruguaios). A maioria de preto, muitas de roxo, jovens, idosas, crianças.

Recebo o panfleto da Coordinadora de Feminismos del Uruguay: 8 de marzo, jornada de paro de mujeres. ¡Si paramos nosotras, paramos el mundo!

Hoy 8 de marzo, ¡Dia de Lucha!

Nosotras paramos. Nosotras, mujeres, compañeras, trabajadoras.

Nosotras, desde las niñas hasta las mujeres de más edad. Nosotras, que estudiamos, trabajamos en nuestras casas y fuera de ellas. Nosotras las libres, las encerradas y las locas.

Nosotras que tenemos la piel de diversos colores, y raíces en distintos pueblos.

Nosotras que deseamos amar fuera de las reglas heteronormativas. Nosotras las mujeres trans, las que parimos hijas e hijos o las que no queremos hacerlo. ¡Paramos y estamos juntas, en alerta y en las calles una vez más!

Pela manhã, tinha ido, com a Flora e a Abigail, ao Jardim Botânico. Cerrado por motivo de paro. Passeamos pelo Rosedal e pelo Parque del Prado, depois fomos ao Jardim Japonês, também cerrado. Fomos almoçar no La papa, na porta um cartaz com pedido de desculpas por não nos atenderem: ¡estamos luchando!

Mas não pensem que toda Montevidéu parou: aquela mulher negra de uniforme laranja fez como todo dia faz tudo sempre igual: varreu as folhas secas de plátano e as despejou no carrinho cilíndrico, laranja como seu traje. Ao vê-la, pensei que para ela não existe 8 de março.

Depois li num saite a queixa de uma professora, que aderiu ao paro e teve o dia descontado.

A luta é assim, desigual: há as que perdem o dia, há as que perdem o emprego, há as que não sabem o que se passa. E estas são as que mais precisam da luta de todas.

Mas a partir das quatro o paro pegou geral e cortejos de mulheres de negro começaram a desaguar na Plaza Libertad ou em pontos do trajeto programado, na 18 de Julio.

Paramos y no estamos solas. Estan con nosotras las diversas mujeres que se hicieran oír a lo largo de la historia, que nos regalaran su lucha florecida y amorosa, que comparten su potencia revolucionaria.

Havia lido a placa durante o passeio matinal: Avenida Alfonsina Storni. Ao ler, ouvi, lá do fundo da memória: Sabe Dios qué angustia te acompañó, qué dolores viejos calló tu voz, para recostarte arrullada en el canto de las caracolas marinas, la canción que canta en el fondo oscuro del mar la caracola. Alfonsina e muitas outras estavam ali, no meio daquelas mulheres.

Queremos seguir construyendo un movimiento que haga sentir su voz y sea visible.

Un movimiento que cuestiona la sociedad, que sabe que el patriarcado, junto al capitalismo, el racismo y la guerra imperialista de los poderosos nos mata y empobrece. Porque queremos un mundo donde nuestra existencia y la de las y los que amamos sea digna.

Não sei quantas participantes da marcha adeririam integralmente ao manifesto. Provavelmente não a maioria. Mas o certo é que o feminismo pulsava na cidade. Na véspera, o Concerto da Sinfônica no Teatro Solis fora dirigido por uma mulher, para interpretar obras de compositoras mulheres, com solistas mulheres. No dia seguinte, ao entrar no Museu Nacional de Artes Visuais, conheci Leonilda González e suas Novias revolucionarias.

No nos hemos callado: salimos a las calles, denunciando cada feminicidio. Porque el estado patriarcal y capitalista sostiene y reproduce las condiciones para que todos los días nos violenten, nos golpeen, nos violen, nos maten. Porque no tenemos las garantías institucionales ni los acompañamentos necesarios cuando enunciamos los abusos a los que nos vemos sometidas. Conjuramos el dolor en un abrazo, reafirmando nuestra capacidad de autocuidado, singular y colectivo, recordando que la violencia no es un problema privado. Hoy volvemos a afirmar: ¡Tocan a una, tocan a todas!

Foram múltiplas as mensagens nos cartazes e faixas, mas a mais comum coincidiu com a do refrão ouvido do início ao fim: no, no más, no matar, no matar más. Mania de crítico: eu, homem e brasileiro, pensei que haveria mais temas importantes, tantas lutas que renderiam outros refrões não cantados. Eu só não sabia, ao assim pensar, que em 2017 houve no Uruguai oito feminicídios, oito mortes praticadas por companheiro ou ex-companheiro. Quase uma por semana, num país de 3,5 milhões de habitantes. Sim, está certo o refrão: ni una menos.

Paramos porque somos objeto de acoso, en la calle, en la escuela, en el trabajo, en las redes. Porque nos siguen presentando como objetos para satisfacer necesidades y deseos de otros, porque se nos cosifica, violenta y expone. Porque todos los espacios son espacios de nuestra lucha antipatriarcal, nos juntamos, conspiramos y decimos basta. Hacemos de nuestra rabia un arma, las templamos al fuego de la pasión y salimos a la calle.

Antipatriarcal. Depois da violência de gênero, esta foi a alusão mais frequente que li e ouvi. Aqui ninguém se atreveria a homenagear a mulher dizendo o quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Aqui sua contribuição à economia não se limita a comparar preços em supermercados. Foi o que li num cartaz: No sé coser, no sé bordar, pero sé abrir la puerta para ir a luchar. Estas mulheres não são recatadas!

Paramos porque los poderes médico, político, judicial y religioso continúan limitando y condenando nuestra autonomía. Nos condenan cuando nos atrevemos a decidir si queremos ser madres o no, cómo, cuándo, dónde y com quién parir a nuestras hijas e hijos. Porque a pesar de nuestras luchas se aprobó una Ley de Interrupción Voluntaria del Embarazo que aún presenta restricciones y mantiene el aborto como delito, y ni aún así nos garantiza el acceso y derecho a decidir lo que ella habilita.

Muitas crianças, meninas e meninos, na cacunda, no carrinho, nos braços, no chão. Com a mãe, com o pai, com a família. Um menino de três anos no colo da mãe se diverte puxando para si o enorme balão amarelo da Anistia Internacional. Adiante, vejo, escrito em vermelho no ventre crescido de uma nova mãe: mi cuerpo, mi decisión.

Hoy paramos porque la pobreza, el desempleo, la tercerización y la precarización recaen y se profundizan sobre nosostras, más aún en tiempos de crisis. Porque nosotras, doblemente oprimidas, seguimos sosteniendo la doble jornada laboral. Porque el cuidado que hacemos de otras y otros se invisibiliza y nos es negado como trabajo. Porque nos preparamos más y nos pagan menos; porque somos las últimas en entrar al mercado de trabajo y las primeras en salir.

Quando a marcha se aproxima da Avenida Constituyente, esqueço por um instante das mulheres, esqueço que estou em Montevidéu. Constituyente me faz lembrar de 1988 e, simultaneamente, do desmanche que aos poucos está sendo feito na nossa Constituição. O tempo é de crise, e no Brasil também de retrocesso, e nele sofrem as mulheres, sofrem os homens.

Mas é ainda ali, na Constituyente, que acordo novamente para as mulheres uruguaias. Ou são elas que me acordam, porque o candombe do La Melaza se incorpora à caminhada e começa a dar ritmo a ela. O tamanho da passeata recomenda a divisão dos tambores, com a formação de duas baterias, cada uma dando ritmo à coreografia de tantas mulheres mais.

Porque somos las de ahora, las de siempre, las de todos los tiempos, las de aquí y las de allá, las que sin miedo a la libertad nos empecinamos en cambiar la vida.

Ao ritmo do candombe, das palmas, do no, no más, no matar, no matar más, da garra dos cartazes e dos cartazes mostrados com garra, dos metais que tocam Imagine, dos rostos solidários e decididos, da energia ali construída, fui tomado por uma emoção que não era minha, porque ela estava no ar e era coletiva. Era só uma caminhada de 8 de março, mas senti ali esse cambiar a vida.

Nosotras que estamos hartas! Nosotras, las brujas, las que sabemos conjurar, las que nos abrazamos para tomar fuerza y seguir luchando. Nosotras que creemos en nuestra fuerza colectiva, gritamos fuerte para que se sumen otras, muchas otras. Nosotras seguimos com el puño en alto y la dignidad rebelde. Reafirmamos que cada una se junte com otras de todas las formas posibles para construir una vida libre para todas.

As 14 quadras que separam a Plaza Libertad da Universidad de la República levaram mais de duas horas para serem percorridas. Perto do final, resolvi ver de fora e me adiantei até o largo da Universidade, já ocupado, talvez porque parte da passeata se desgarrara. Para ver melhor, subi a rampa de acesso à Biblioteca Nacional, onde Cervantes e Sócrates estavam paramentados de roxo. Levou mais meia hora para chegarem, mas na frente da universidade as bruxas queimavam simbolicamente o patriarcado. Mesmo me postando num plano superior, meus olhos não alcançavam o fim da passeata. À noite, sem Datafolha e sem Polícia Militar, ouvi, desapontado, os jornais dizerem miles de mujeres. Sim, vi que foram miles. Foram miles e miles, mas queria algo mais preciso. Esbocei uma tentativa de cálculo. Talvez dez quadras, trinta metros de largura, duas pessoas por metro quadrado? Isso dá 60 mil. Uma das organizadoras, pouco maliciosa, disse 50 mil, um saite de esquerda 300 mil, uma televisão mais de 25 mil. Acabei ficando com o El País, que mais genericamente falou em decenas de miles. Mas digo: nunca vi tantas mulheres juntas, talvez tenha visto tanta gente reunida só na campanha das Diretas . As mulheres de Montevidéu lavaram minha alma.

¡Feminismos en las plazas, las casas, las camas y en todas partes!

¡Vivan las luchas feministas y de las mujeres!

¡Viva el 8 de marzo!

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2 comentários em “As mulheres de Montevidéu

  1. E aqui a função da escrita, caro Pio: a de levar, aos que não puderam estar lá, o som, o calor, as cores, os tambores e as coreografias que tomaram as ruas de Montevidéu, no dia 08 de maio de 2017.
    Walter Benjamin, em um de seus textos célebres chamado “O Narrador”, diz que o narrador retira de sua própria experiência elementos para compor a narrativa e, assim, a experiência é vivida e incorporada por outras pessoas – as que puderam ouvir as histórias. O Narrador é, também, um viajante.
    Agradeço por compartir essa história. Também às analogias com o que estamos vivendo, tristemente, aqui no Brasil, nestes tempos estranhos. Sigamos na luta!

  2. teu texto/relato me levou para junto delas, me senti no meio daquela multidão, fui invadida de uma esperança que faz anos que não sentia. já intuía pelas imagens que vi de lá, que algo especial aconteceu em Montevidéu, como no restante do planeta. não é mais um protesto por direitos dentro de um sistema que é ele mesmo o grande vilão. é a compressão crescente de que o patriarcado é o gerador de toda a violência, individualismo, exploração e miséria que a humanidade vive desde tempos antes mesmo do capitalismo. tenho me sentido desanimada em participar de lutas contra a violência de gênero e depois ver as minhas companheiras dividirem-se em partidos onde as regras seguem sendo aquelas do mundo patriarcal. uma onda alegria invadiu meu coração, também pela capacidade do Pio Giovani Dresch de olhar e transmitir o que viu neste relato detalhado, atento e preciso, mas fundamentalmente pelo que ele viu e que amenizou meu temor crescente de que a américa latina iria transforma-se novamente num lugar que anula a vida de gerações, que mata os jovens e os sonhos. eu sei, agora mais ainda, sei que as mulheres que tem esta consciência, são a vanguarda de um novo mundo. e elas estão ali no vizinho Uruguay, na Argentina,no distante Curdistão, e até mesmo no coração do capitalismo, eua e europa. e não é uma semente…são muitas e já germinaram. Obrigada.

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