Algo de podre

Um dos grandes vexames internacionais do Governo Temer aconteceu em junho do ano passado, quando a Noruega comunicou a redução dos aportes ao Fundo Amazônia, por conta da recente reversão de expectativas em relação à redução no seu desmatamento.

Não que surpreendesse a decisão, dado o malogro na política de preservação da Amazônia, que atingiu seu menor índice de derrubadas em 2011-2012 e depois voltou a crescer, mas o fato de o anúncio ter ocorrido em plena visita oficial àquele país, com direito a uma frase desastrada do Ministro Sarney Filho, segundo o qual só Deus pode garantir a redução do desmatamento, foi notado como sintoma da nossa perda de prestígio internacional.

Era significativo que isso viesse da Noruega, país que apoia políticas ambientais mundo afora, dada a profunda consciência ecológica de sua população e o compromisso de seus governos com programas de preservação da natureza.

Isso tem, evidentemente, relação com o altíssimo grau de educação dos noruegueses, como dos escandinavos em geral, cujas sociedades reduziram a desigualdade social a um nível inexistente em qualquer outra sociedade capitalista, graças a seu modelo bem-sucedido de social-democracia. Não por nada, a Noruega é a campeã mundial no índice de Desenvolvimento Humano, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Mas, como, muitas vezes, os casos únicos são inimitáveis – só por isso únicos –, sempre se argumentou que é impossível, no âmbito do capitalismo, disseminar essa experiência para o mundo, porque a igualdade nórdica é financiada pela pobreza e desigualdade dos países dependentes, viabilizando-se por esse paradoxo.

O mesmo talvez se possa dizer da consciência ambiental e da possibilidade de dela extrair políticas de preservação: é possível ser ambientalmente responsável lá onde o capitalismo é humano, mas não onde ele assume seus instintos mais selvagens, como no Brasil, que a cada três anos derruba da Floresta Amazônica o equivalente a um Sergipe, sem que isso desperte nenhuma mobilização social.

Não se deve, com isso, menosprezar o papel norueguês de pressão para a adoção de políticas de defesa do ambiente natural, que vem sendo destruído a um ritmo que em breve tempo levará à extinção de um número infindável de espécies e a um nível de aquecimento do planeta que poderá inviabilizar nossa sobrevivência. É muito bom ter a Noruega como mocinho, numa história em que o bandido está ganhando.

Mas, como torcer para mocinhos capitalistas não tem muita chance de dar certo, vem a empresa Hydro Alunorte, de capital do governo norueguês, causar um desastre ambiental na Amazônia, ao contaminar áreas verdes e rios com rejeitos tóxicos de uma refinaria de óxido de alumínio.

Pelo que consta, a contaminação em grande escala ocorreu por conta do vazamento dos seus depósitos de rejeitos, após intensas chuvas, mas também por um duto clandestino, que jogava rejeitos diretamente na água.

Dizem que não se trata de uma nova Mariana, mas o estrago é grande, atingindo severamente flora e fauna, assim como a população ribeirinha da região.

Assim, o mesmo governo que pressiona o Brasil por conta da derrubada da floresta polui os rios amazônicos, contribuindo para sua degradação ambiental.

Quando a Samarco, que não paga multas nem é punida, mata o Rio Doce, isso revolta mas não surpreende; quando empresa do governo norueguês contribui para a destruição da Amazônia, deixa uma impressão amarga, como a de ser picado pelo escorpião da fábula, que não pode negar a sua natureza.

Há algo de podre no reino da Noruega. Melhor era tê-lo como aliado.

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