A hora de morrer

Quando será a hora da morte? Não faço propriamente cálculos sobre isso, mas penso às vezes. Imagino que todo mundo pensa, uns mais, outros menos. E a única certeza que podemos ter é a de que na próxima vez em que pensarmos no assunto teremos menos tempo que agora.

Terrível, a consciência da morte. Convivemos mal com ela, tentamos a vida inteira nos acostumar, e não conseguimos. Não por nada se multiplicaram as religiões e tantos cultivam com esmero a esperança de que haja um depois.

Também por isso temos tanta dificuldade em aceitar a morte de quem nos é querido. O fim da existência sempre dói.

Mas há uma hora – como dizer? – justa para morrer? Posso aspirar oitenta? Noventa? Com os avanços da medicina, tenho direito a sonhar com cem? Também pensamos assim, porque poucos são os que não queiram adiar ao máximo o momento fatídico.

O fato é que todo mundo terá sua hora. Ela virá, provavelmente antes para quem negligencia a saúde, depois para quem se cuida, mas nem sempre, porque o fumante Niemeyer viveu 105 e um atleta pode ter câncer aos trinta.

Por isso, embora me cuide, no fundo sou fatalista. Não como um conformado, prisioneiro total do destino, mas como alguém que observa a Morte jogar seus dados.

Penso assim da morte morrida, e penso também da matada. Não estou livre de morrer num acidente ou num assalto e, se assim acontecer, é porque fui sorteado. Claro que é perigoso esse papo de ser fatalista: morrer num assalto não é tão raro no Brasil, mas é raríssimo na Noruega, e isso tem a ver com muita coisa que não tem nada de fatalidade. Mas, como sou brasileiro e os dados daqui parecem viciados, penso em minhas chances como brasileiro, com os dados que aqui se jogam.

Aliás, embora muitos digam que Deus é brasileiro, talvez brasileira seja ela, que joga para nós esses dados verde-amarelos.

Mas, se mesmo morrer num assalto me parece uma possibilidade estatística aceitável, quase um dado atuarial, uma megassena às avessas, que um dia alguém ganha, há um tipo de morte que me parece vir antes da hora.

É como se a terrível senhora da gadanha tivesse se distraído, parado momentaneamente de jogar, e algum secretário dela saísse sem autorização para fazer uma colheita extra entre pessoas que não estavam marcadas.

Falo da morte por falta de assistência, por negligência, de quem não obteve a devida atenção para um problema corriqueiro. E não é também da negligência individual que falo, embora esta possa existir, mas do desmonte estatal, que leva a recusar atendimento a quem precisa.

Foi o que aconteceu com o Edemir. Apresentava quadro de dor e febre, sintomas de doença respiratória, mas não foi atendido em nenhuma emergência. Foi atendido no posto da Cruzeiro e liberado com uma receitinha básica. Só fez piorar, e três dias depois retornou de SAMU. Não foi para nenhuma emergência, porque a SAMU só leva para o posto: é assim que funciona. Desta vez, diagnosticada pneumonia aguda, ficou ali, mais dois dias, aguardando leito. O leito, na UTI da Santa Casa, só veio por liminar obtida pela Defensoria Pública. Mas aí já havia septicemia, e o tempo havia acabado.

Eu não conhecia Edemir, era irmão de uma amiga, a Sueli Mousquer, e o lamento dela começou assim: “Quando a morte leva alguém que a gente entende que podia viver muito mais, só nos resta a dor e as lágrimas.” É isso: a Morte poderia até ter lançado um meteoro sobre Edemir, mas, não, ela havia por alguns instantes largado os dados e tomava um solzinho para desenferrujar os ossos, quando Edemir foi abandonado por nosso Sistema Único de Saúde.

É esta a morte que mais me assusta, a do abandono. Diante dela, deixo de ver fatalidade e vejo escolha. Não que isso me surpreenda: sempre soube da precariedade do sistema de saúde brasileiro, e nele com frequência os pobres morrem esse tipo de morte distraída. O que me parece novo é que a morte por falta de assistência chegou à classe média.

Já fazia tempo que não pensava sobre a hora da minha própria morte. Talvez esteja mesmo entre os privilegiados que serão sorteados no dado, mas não me conformo com essas colheitas extemporâneas.

Pensava nisso, na morte perversa de Edemir, ao final do meu dia de trabalho. Pensava nele, e no rádio do carro terminava a Voz do Brasil e começava a propaganda partidária. Meu pensamento se misturava com as falas, e por isso ainda lembrava de Edemir quando ouvia uma voz feminina declarar, em tom ufanista, sua fé no futuro do Brasil, esse com menos Estado que o Governo está construindo.

A ilustração é de Bruegel, o Velho. Detalhe de O triunfo da morte.

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