A falta que faz um intelectual conservador

Mas esse cara é meio comunista, foi o comentário de um leitor fortuito, quando leu Nós, classe média, e o outro. Outro leitor comentou, num compartilhamento de O ódio é de direita: dependendo do lado em que estamos é paixão e o outro lado é ódio?

O certo é que existem lados. E é bom que existam, porque é no debate entre diferentes que se constroem as ideias mais consistentes.

A questão é que, em alguns momentos históricos, se criam polarizações tão intensas, que impedem o diálogo entre diferentes. Se o cara que escreveu o texto é meio comunista (e só o será se o texto for visto como meio comunista), as ideias por ele postas são liminarmente rejeitadas, porque vêm de uma quadrante com o qual não cruzo. Da invisibilidade do outro, tratada no texto, passa-se à surdez diante da sua fala.

Nos movemos conforme nossas crenças – é oportuno o vocábulo, com tudo o que ele carrega de místico, de religioso –, e não aceitamos nada que se volte contra nossas sagradas escrituras.

E isso se dá no contexto das novas ferramentas de comunicação, em que todos são convidados a manifestarem suas opiniões nas redes sociais, o que permitiu aflorarem todos os tipos de preconceito com uma facilidade que antes não existia. Se, como sempre, somos cegos para o sofrimento do outro; se, como nunca, somos surdos para os argumentos do outro, é certo que esses novos tempos nos deram voz, e falamos cada vez mais.

Trata-se, claro, de uma voz não ouvida, exceto por quem compartilha das mesmas crenças, num momento em que a palavra algoritmo foi retirada da incompreensível aridez matemática, para, ainda incompreensível, passar a designar fórmulas criadas para que o Facebook, Google e outros saites nos mostrem somente o que queremos ver, vindo de pessoas que pensam como nós. Assim se fecha o círculo.

Se isso já é em si um problema, torna-se mais grave pelo empobrecimento das falas, que muitas vezes expressam um senso comum infantilizado, de regra acompanhado de preconceitos que antes permaneciam envergonhadamente encobertos. É um fenômeno a ser ainda melhor compreendido, mas o certo é que, se hoje cada vez mais pessoas têm voz, a tentação de os dedos teclarem para o mundo idiotices inomináveis indica que não estamos conseguindo tirar bom proveito dessas ferramentas.

A tudo isso se soma, no Brasil, um acirramento da polarização político-ideológica, com a consolidação, em grande medida estimulada pela mídia, de um referencial conservador trazido por intelectuais (?) direitistas, que falam a linguagem apta para ser ouvida pelo preconceito rasteiro que cada vez mais se manifesta.

Lamento muito, nesse quadro, que estejam em falta intelectuais conservadores com consistência para se fazerem ouvir pelo outro lado, intelectuais que tenham a capacidade de, com sua solidez, romper as barreiras das crenças e restaurar um diálogo construtivo entre diferentes.

Mas o que lamento mesmo é que faltem intelectuais conservadores de respeito para se fazerem ouvir pelo próprio lado. Terão se extinguido ou perderam eles próprios a liderança ideológica para esse pensamento caricatural, tão ao gosto de quem odeia pensar?

Meu texto, o texto de um cara meio comunista, certamente não encontra eco entre quem professa o outro credo, mas o pior é que quem me vê meio comunista esteja submetido à condução ideológica da direita de Miami, por falta de conservadores de respeito no mercado ou, pior, porque talvez tenhamos chegado a um tempo em que mesmo estes correm o risco de serem considerados meio comunistas.

A ilustração do texto não é a mais adequada: não achei uma em que ao lado do macaco cego e do surdo houvesse um macaco falante.

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