A falácia do pensamento médio

Frequentemente aparece em debates políticos a alusão ao pensamento médio, utilizada por candidato que pretende se dizer seu representante.

Pronunciada em período pré-eleitoral, a frase pode perder seu sentido se, no momento da eleição, o pretenso representante desse pensamento não se eleger. Nesse caso, e porque construída a fala como se o enunciador fosse representante de um posicionamento majoritário, talvez a conclusão possa ser a de que o pensamento médio era outro, que não o dele.

Há nisso uma dificuldade conceitual, que está em saber se pode acontecer de um pensamento alegadamente médio não ser majoritário. Estivéssemos falando de matemática, a resposta seria simples, mas, tratando-se de opinião pública e escolha política, a questão é mais complexa.

Basta imaginar uma eleição presidencial disputada, em segundo turno, por um candidato de direita e outro de esquerda, para ver como, em semelhante situação, o pensamento médio, presumivelmente de centro, estará alijado da disputa.

Portanto, embora a pretensão do enunciador seja essa, médio não é necessariamente majoritário. Aliás, é de se perguntar se existe mesmo pensamento médio ou se ele é aferível (lembro da famosa reflexão de Bourdieu sobre pesquisas de opinião, em que afirmou que a opinião pública não existe).

O pensamento majoritário consegue se manifestar em alguns momentos, diante das opções postas: numa eleição, não será possível saber qual cidadão do país poderia ser o mais votado, mas se saberá o mais votado entre os que se candidataram. Mesmo assim, o majoritário de hoje poderá não ser o majoritário de amanhã, como acontece quando o mais votado passa a ser rejeitado pela maioria do eleitorado.

Por outro lado, seja tratada a questão como pensamento majoritário, seja como pensamento médio, há momentos em que, defrontadas com determinada situação, muitas pessoas adotam uma posição diferente da que adotariam no seu dia a dia. Assim, com certeza, a adesão à pena de morte crescerá significativamente logo após um crime brutal abalar a sociedade.

Aliás, esse exemplo remete a uma outra questão: a incompatibilidade entre alguns discursos que se constroem como se representassem o pensamento médio e as garantias constitucionais.

Como se portaria hoje o chamado pensamento médio diante de algumas garantias apresentadas como conquistas há quase trinta anos? O que diria, por exemplo, da livre expressão artística, que não depende de censura ou licença? A tentativa de fechamento de exposições pode ser expressão do pensamento médio?

Como ficaria o defensor do pensamento médio diante de semelhante situação? Seria capaz de se posicionar publicamente a favor de um direito fundamental quando não correspondesse ao que considera ser o pensamento médio?

Isso se torna ainda mais complexo quando se considera que a formulação de representação do pensamento médio se faz em oposição ao que presumivelmente dele se afasta: o pensamento dito ideológico, visto que o representante do pensamento médio nega ter ideologia, e o pensamento dito elevado, ou de vanguarda, como acontece na arte ou na ciência.

Com certeza, o autodeclarado representante do pensamento médio teria vaiado a estreia da Sagração da Primavera e se escandalizado com a Origem do Mundo.

Em outro plano, se um coronel faz um vídeo tendo a seu lado um adolescente algemado, que chama de bandido, o defensor do pensamento médio ousaria criticá-lo? Ou silenciaria, mesmo se contrariado, mas intimamente satisfeito com a resposta à bandidagem e obsequioso à autoridade que nos protege? Provavelmente agiria assim, porque seu compromisso é com o pensamento médio ou, mais precisamente, com o que ele diz ser o pensamento médio.

Sim, porque, se o pensamento médio não existe, existe aquilo que o autoproclamado porta-voz do pensamento médio diz que ele é. A pessoa pensa de um determinado modo, por certo conservador, presume que isso corresponde ao pensamento médio, e se torna o porta-voz de si próprio, embora acreditando que sua fala é a expressão de uma coletividade.

Embora arrogante e autoritário, porque toma a si a capacidade, negada a quem pensa diferente, de representar o pensamento médio, o enunciador formula uma fala presumivelmente democrática, porque representante da maioria. E o faz com convicção, porque se ilude de sua capacidade de tradutor.

Quando em campanha eleitoral, o discurso pode atender a várias finalidades. Pode, por exemplo, ocultar o vazio programático, sob o argumento de que executará o que a maioria pedir. Pode ocultar as verdadeiras intenções, quando inconfessáveis antes da eleição, como, por exemplo, a de vender o patrimônio público. Pode, ainda, servir como enunciador de uma identificação com o eleitor, imaginado como ser medíocre, com quem estabelece uma aparente cumplicidade, ao não formular programas complexos, reservados aos candidatos prolixos e ideológicos.

Na prática, o discurso do pensamento médio representa isso: uma fala rarefeita de conteúdo, de quem se imagina tradutor fiel da maioria, pensada esta como um corpo inerme e conservador, incapaz de pensamentos complexos.

Isso soa perfeito em tempos em que pensar é perigoso. É, de fato, sedutor apresentar-se como intérprete do sentimento da maioria, mesmo que essa maioria não passe de uma projeção insuscetível de ser aferida. Se, ao final, o próprio eleitor disser algo diferente, terá valido a tentativa.

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