A caminho do trabalho

Rádio eu ouço no deslocamento. Vinte minutos de manhã, dez à noite e menos que dez antes e depois do almoço. Era a Cultura, evidentemente. Minutos de Bergter, depois Lena Kurtz, Demétrio, Paulo Moreira. Se variava o horário da manhã, pegava MPB; se me antecipava à noite, desligava, porque ninguém aguenta discurso de deputado (nada contra os deputados, tudo contra a pobreza dos discursos).

Ocasionalmente, quando a entrevista do Bergter não me interessava ou não gostava da música, dava uma chuleada numa das grandes, principalmente onde estivesse o Juremir, ou na Rádio da Universidade, com seu chiado de chuvas e trovoadas.

Mudou um pouco: depois que abduziram a alma da Cultura, ainda passo por lá, mas paro mais na Rádio da Universidade. Até retomei o antigo hábito de tentar adivinhar o compositor. Se possível, também a obra; se não, ao menos o período.

Foi assim que, na esquina da Ipiranga, distraído entre bergamotas ponkan e seis panos por dez, ouvi o locutor me dizer que não era Suíte de Bach coisa nenhuma, era a Música Aquática mesmo. Ainda murmurei uma desculpa, como se me ouvisse do outro lado do rádio – me confundi porque foram só os movimentos finais – mas me senti como dias antes, quando a bola, vingando-se do longo tempo de abandono, não me permitiu sequer uma terceira embaixada.

O sinal abriu, e deu no Jornalismo 1080, enquanto subia o viaduto da Bento: polícia alemã matou 11 pessoas em 2016. Ouvi e pensei: num ano o mesmo número de pessoas que a polícia de Pau d’Arco, no Pará, matou em alguns minutos, quando invadiu, em maio, um acampamento dos Sem Terra.

Minha comparação antecipou em alguns segundos a do próprio rádio, e, já na frente da Brigada, ouvi que a polícia do Rio matou em janeiro o mesmo número de pessoas que a polícia da Alemanha, 81 milhões de habitantes, matou em seis anos.

Segui, pensando na Alemanha e no Brasil de Pau d’Arco e do Rio de Janeiro, fiz o retorno na São Miguel, estacionei, desliguei o motor do carro e, com ele, o rádio, que a essa altura já nem ouvia, a ponto de não lembrar se estava em outra notícia ou no próximo compositor que eu não identificaria.

O que lembro é de ter pensado que, neste mesmo Rio de Janeiro, o Ministério Público está organizando um seminário para combater a bandidolatria, ficando com a triste sensação de que talvez o MP do Rio ache que a polícia de lá deve matar mais.

E concluí, enquanto o elevador chegava ao quinto andar, onde o trabalho se encarregaria de me fazer voltar ao mundo: a polícia da Alemanha deve ser bandidólatra.

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