A funda de Davi

A infância é a idade mítica, e nela tudo se conserva. Esta semana, minha lembrança retornou às histórias bíblicas de então. Não lembro bem se as recolhi das leituras do sótão ou dos primeiros anos escolares ou mesmo da catequese, mas há muitas. Também não sei por que as do Antigo Testamento aparecem com mais facilidade que as do Novo Testamento: foi porque estavam mais disponíveis ou porque guerras e intrigas eram mais interessantes que o amor, e por isso ocuparam lugar privilegiado na minha memória? (mais…)

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1º de maio

O boletim, feito em mimeógrafo a tinta (ajuda de última hora do Stédile, que descolou uma gráfica de centro acadêmico), dizia no título que era dia do trabalhador, não do trabalho.

Do texto, lembro que fazia alusão à origem da comemoração, na luta pelas oito horas na Chicago de 1886, e também que dizia, na linha do título, não ser este um dia de comer churrasco dado pelo patrão, mas de lutar por direitos. (mais…)

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O clima de 2018

Paira no ar um clima de confronto direita x esquerda nas eleições de 2018. Dita assim solta, a frase é quase um truísmo porque não houve, desde o fim da Ditadura, eleição presidencial que não tivesse, ao final, oposto candidaturas de direita e de esquerda.

Assim foi em 1989, com Collor e Lula, em 1994 e, mesmo sem segundo turno, em 1998, com FHC e Lula, e nas quatro eleições seguintes, entre candidatos do PT e PSDB. Ainda que a alusão do nome do PSDB à social-democracia lhe desse no início um certo verniz de esquerda, sua aliança com o antigo PFL e as políticas privatistas de FHC logo mostraram seu lugar de fato no espectro político, bem simbolizado no “esqueçam o que escrevi”. (mais…)

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Meu caro amigo

Meu caro amigo

Não podes imaginar a satisfação com que recebi tua mensagem. Já se foi, perdida, a nossa mocidade e faz tempo que penas ouvia alguém dizer, de vez em quando, que fulano está bem. Saudades da parceria, que os anos, e não só os anos, não trazem mais.

Se emociona receber notícias tuas, o motivo da mensagem também me permite aliviar um pouco os tantos nós presos na garganta. Deves ter percebido que o diálogo anda difícil, e o que fazes é justamente convidar ao diálogo. (mais…)

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A ameaça

Não assisti ao Jornal Nacional, há anos não assisto, mas dizem que Bonner encerrou o noticioso (leia-se com aspas) repetindo com ar tenebroso uma postagem que o Ministro do Exército fez no Twitter com o seguinte conteúdo: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.”

Isso tudo à véspera do julgamento mais importante da história brasileira. Não que devesse sê-lo, porque matérias jurídicas mais relevantes já passaram por lá, mas porque a decisão diz respeito à possibilidade de prender antes do trânsito em julgado o candidato que lidera as pesquisas a presidente.

Talvez eu não tenha entendido a mensagem do general, mas me vêm à mente vários pensamentos. O primeiro deles é óbvio: ele está dizendo que, dependendo da decisão que venha a ser tomada, isso configurará impunidade. Mais: diz que o Exército Brasileiro repudia a impunidade. Em terceiro, numa óbvia articulação entre o primeiro e o segundo pensamento: o general está proferindo uma ameaça.

Sim, é isso: na véspera do julgamento, o comandante do Exército diz que uma das decisões possíveis do julgamento será repudiada pelo Exército. E a comandante da mídia golpista reproduz a matéria com as cores funestas de coveira da democracia.

Daí, me vêm duas perguntas: 1) O Supremo se dobrará à chantagem? 2) O que o exército fará se o Supremo não decidir como o seu comandante deseja?

Pensei que não viveria para ver isso acontecer.

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Sinal trocado

Sérgio José Dulac Müller. Foi ele quem me entrevistou quando fiz concurso para juiz. Ele e o Roenick. Depois, com o Favretto, fez minha banca em Direito Comercial.

Bom de conversa, foi quem conduziu a entrevista, e, como eu próprio resolvi não seguir os prudentes conselhos que haviam me dado, de esconder minhas inclinações ideológicas e a militância que tivera alguns anos antes, logo o assunto enveredou para a política, ele com suas posições liberais, eu uma pessoa de esquerda.

Não lembro de tudo o que se disse ali, mas lembro que em dado momento ele me perguntou se, como juiz, aplicaria o Direito Alternativo. Eu não pensava sobre isso, sempre me mantivera distante dessas discussões, numa época em que as dificuldades da advocacia me faziam trabalhar muito, e o pouco tempo que me sobrava era dedicado a estudar para o concurso. (mais…)

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Barrar o ódio

A execução de Marielle colocou na nossa pauta a questão do ódio. Não o ódio de quem puxou o gatilho, porque quem mata assim não costuma fazê-lo por ódio, mas pelo cálculo frio do interesse contrariado, da necessidade de manter seu mercado ou garantir sua impunidade.

O ódio de que falo é o dos gatilhos simbólicos puxados aos milhares por sociopatas que vibraram com a morte e a comemoraram nas redes sociais. É o ódio de quem há tempo se livrou de qualquer freio inibitório, para destilar seu veneno contra tudo o que remotamente possa representar inclusão social, cujos defensores acabam, pela repetição, por ser identificados a vagabundos ou criminosos, ou então a aliados de criminosos, como são vistos todos os que se dedicam à defesa dos Direitos Humanos. (mais…)

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Marielle

Não a conhecia, não sei quem a matou, se foi polícia, se foi bandido. Ou se foi polícia-bandido.

Sei que era mulher, pobre, negra, bissexual (não sei em que ordem devo dizer). Faltou dizer: era favelada.

Veio da Maré, conseguiu bolsa para fazer curso superior, depois fez mestrado, virou vereadora.

E lutava.

Lutava aquelas lutas, Direitos Humanos, defesa da mulher favelada, contra a violência policial. Era contra a intervenção militar no Rio de Janeiro, intervenção que não serviu para protegê-la, como não protege os pobres da favela.

Marielle foi fuzilada.

Vinha do debate Mulheres negras movendo as estruturas. Lá terminou sua fala dizendo: Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas.

Saiu dali e morreu. Fuzilada.

Marielle não devia lutar, é perigoso. Não devia denunciar a polícia, não devia fazer política, não devia ter feito curso superior. Não devia nada disso. Devia ser doméstica, gari, alguma coisa assim, são profissões para mulheres negras faveladas. Prostituta, talvez. Mas, principalmente, devia ficar quieta.

Não, ela resolveu estudar e lutar. Não devia, é perigoso demais. No Brasil mais ainda. Não era esse seu lugar.

Fosse doméstica, respeitasse seu lugar, talvez estivesse viva.

Viva Marielle!

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Mais plástico que peixes

Em 2050, haverá mais plástico que peixes nos oceanos. Mesmo para mim, que não consigo esperar nada de bom para nosso ambiente, atingido pelo aquecimento global e ameaçado pela corrida armamentista, agora reacendida pelas novas armas anunciadas por Putin, a previsão foi assustadora.

Chego com atraso à notícia, porque o prognóstico consta de relatório apresentado em janeiro de 2016 pela Fundação Ellen MacArthur ao Fórum Econômico Mundial; descubro-a enquanto leio sobre a proposta californiana de proibir o uso de canudos plásticos, cujo consumo, nos Estados Unidos, é de módicas 500 milhões de unidades por dia. (mais…)

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