Indecência

As notícias vieram sem muito destaque. Na verdade, começaram mesmo como seminotícias, apresentadas na condicionalidade do futuro do pretérito composto teriam sido.

O teriam sido continuou por vários dias, depois, aos poucos, sem alarde, mudou par foram. Não é mais os índios flecheiros teriam sido mortos; já se dá como certo que foram mesmo mortos por garimpeiros. Não há corpos, não se sabe o número, fala-se genericamente em mais de vinte. (mais…)

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A flor do jardim

Houve, nas reações ao fechamento antecipado da exposição Queermuseu, uma que me preocupou mais do que o obscurantismo conservador de sempre e o novo fascismo do MBL: a das muitas pessoas verdadeiramente democráticas que, sem se sentirem encorajadas a explicitamente defender a censura, levaram seu discurso para o mal estar diante de algumas obras que consideraram ofensivas. (mais…)

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O ônibus da Paulista

Entrou Janot, saiu o maluco do ônibus. Voltou a grande política e saiu a pequena política do cotidiano das relações sociais, assim satisfazendo quem lamentava o prosseguimento da masturbação. Mesmo assim, não posso deixar de voltar ao assunto, porque vejo nos detalhes que cercaram o evento anterior uma série de implicações que dizem com o nosso pensamento e nossa prática social. O farei na forma de notas. (mais…)

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Overdose

O que tiveram em comum o tsunâmi que atingiu o Sri Lanka e o furacão Katrina, que atingiu Nova Orleans, além do fato de terem sido fenômenos climáticos? Foi a voracidade do mercado, que, ao aproveitar-se do choque causado pelos desastres, removeu pescadores da costa asiática, colocando em seu lugar resorts de luxo, e retirou a população pobre da Louisiana das suas antigas moradias, derrubando também suas escolas e hospitais, para construir condomínios e instituições privadas. (mais…)

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Venezuela

Deu na capa da Veja: o falastrão caiu. Lembro que de Ijuí, onde morava, mandei mensagem: minha assinatura vai até o final do ano, mas podem parar de mandar agora. O fato é que a revista comemorou o golpe que derrubou Chávez. Começou com manifestações de rua convocadas por entidades empresariais e imprensa e se consumou com uma ação militar. Era 2002, tempo pouco, mas os golpes ainda eram feitos com fuzis. Tanto era golpe que, daqui, FHC condenou a quartelada. (mais…)

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A caminho do trabalho

Rádio eu ouço no deslocamento. Vinte minutos de manhã, dez à noite e menos que dez antes e depois do almoço. Era a Cultura, evidentemente. Minutos de Bergter, depois Lena Kurtz, Demétrio, Paulo Moreira. Se variava o horário da manhã, pegava MPB; se me antecipava à noite, desligava, porque ninguém aguenta discurso de deputado (nada contra os deputados, tudo contra a pobreza dos discursos).

Ocasionalmente, quando a entrevista do Bergter não me interessava ou não gostava da música, dava uma chuleada numa das grandes, principalmente onde estivesse o Juremir, ou na Rádio da Universidade, com seu chiado de chuvas e trovoadas. (mais…)

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Um dia e outro dia

Parece que foi agendado: um dia a reforma trabalhista, no outro a condenação do Lula. A História acontece agora e a poeira não assentou para que seja contada com cores definitivas, mas a coincidência não há de passar desapercebida a quem fizer, no futuro, a crônica desses dias.

E terá significado muito mais amplo que aquele que lhe possa atribuir quem gosta de contar a História como seleção de fatos pitorescos. Claro que para este será um prato cheio dizer que em dois dias seguidos caíram, primeiro, as bases da legislação de proteção ao trabalhador e, em seguida, o líder das grandes greves operárias dos anos 70, o operário que se tornou presidente. (mais…)

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