Elke, que nunca foi mulher

Elke

Fazia uma pesquisinha básica antes de escrever Língua e gênero – uma folheada rápida na gramática e a procura nessa fonte de erudição que é o Google –, quando me deparei com ela. Foi um reencontro mágico depois de muitos anos de separação: lembrava dela como jurada no programa do Chacrinha (ou era do Flávio Cavalcanti?), e, porque aprendemos cedo a ser preconceituosos, antipatizava com aquela figura exótica de voz esganiçada e gargalhadas livres. Numa entrevista ao Jornal Tabaré, essa liberdade estava inteira, escancarada, e me apaixonei tardiamente. (mais…)

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Escolhas

Sinal fechado

Algumas delas aconteceram e outras são inventadas. Mas é como se fossem de verdade. Foi assim que apresentei minhas historinhas aos pequenos leitores. Entre as que aconteceram está a história de Nicole, a menina de cadeira de rodas que mora lá no fim do morro, junto à pedreira. A história aconteceu assim mesmo, e até mesmo os quatro mil reais pagos pela avó na aquisição do casebre são verdadeiros. Só o nome dela não é Nicole, porque não me senti autorizado a dizer seu nome verdadeiro. (mais…)

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Escolher o crime

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Quando escrevi A barbárie condecorada, sabia que mexia num vespeiro. O resultado foi descrito no texto seguinte, Juiz de merda. Às vezes acontece isso, um assunto que nem ao menos é da tua predileção se impõe e, pelo caráter polêmico, acaba por te levar a um caminho que não querias trilhar.

Mas aconteceu, o tema rendeu, e de certo modo fui enredado por ele. Assim, quando alguém mais fala sobre criminalidade ou violência policial, já me anteno. Algumas vezes penso: isso aí foi uma resposta ao que escrevi, mas logo me dou conta de que não sou o único que escreve semelhantes coisas, e certamente não o mais lido. Mas a pessoalização é de menos, e acabo vendo um debate com minhas ideias, mesmo quando quem escreve nem ao menos sabe da minha existência. (mais…)

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O botão vermelho

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Quem já era vivo nos tempos da Guerra Fria lembra dele. Até eu, criança do interior, presenciei a paranoia da Terceira Guerra Mundial. A geração anterior à minha era a da guerra, e, mesmo com a relativa distância do Brasil em relação ao seu epicentro, sentia nela uma preocupação permanente com a possibilidade da próxima guerra mundial, que seria definitiva, porque fatal: nada sobraria após o uso indiscriminado das armas nucleares. (mais…)

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De rabo preso

De rabo preso

O Jornal Nacional escondia as Diretas Já, mas elas estavam lá, na capa da Folha. Isso foi no início de 1984, e os democratas brasileiros respeitavam o jornal dos Frias. Mesmo em Porto Alegre, muitos amigos tinham assinatura, e quem não a lia durante a semana lia aos domingos.

Valia a pena: com um time de articulistas de primeira linha, reportagens de fôlego e uma postura crítica à Ditadura, a ponto de engajar-se na campanha pela redemocratização, a Folha de São Paulo oferecia aos seus leitores um conteúdo difícil de encontrar em outro lugar. Dava para dizer que se fazia jornalismo sério e de qualidade no Brasil. (mais…)

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Os democratas de Erdogan

Turquia

Sei pouco de Erdogan. Sem pesquisar, sei que é presidente da Turquia, antes foi primeiro-ministro, fundou um partido para si, é sunita, mas mantém a religião longe do Estado, é inimigo da Síria, faz de conta que é contra o Estado Islâmico, reprime o povo curdo, assim como reprime a oposição interna e persegue a imprensa livre.

Na noite de sexta-feira, quando soube do golpe militar e vieram as primeiras notícias do seu fracasso, pensei: agora ele está com a faca e o queijo na mão. Há mesmo quem diga que ele próprio armou. Não sou tão adepto da teoria da conspiração, mas creio bem provável que sabia da conspiração e deixou que acontecesse. (mais…)

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80 horas

Mineiros (1)

Foi um ato falho, com tudo o que se pode extrair dos atos falhos. A França não aprovou 80 horas semanais de trabalho – se o fizesse estaria voltando 200 anos na história. Mas o presidente da CNI, após participar de reunião com Temer, conseguiu se sair com essa. Mais: louvou o governo francês por ter implantado a reforma sem ouvir o parlamento. Está clara a sugestão para o interino: aumente a jornada de trabalho por medida provisória.

Com certeza, nada semelhante será feito antes da votação do impeachment – as maldades ficarão para depois –, mas está claro o propósito, que de resto integra um conjunto de iniciativas para reduzir os direitos trabalhistas no Brasil. A lista é quase infinita, e envolve uma crescente terceirização, o enfraquecimento dos sindicatos e da Justiça do Trabalho, a relativização das normas trabalhistas, entre tantas outras coisas. (mais…)

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Queria uma pra viver

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Já usei, mas uso de novo – fazer o quê, se ela insiste em martelar na minha cabeça? Distraído, canto mentalmente: o que dá pra rir dá pra chorar, questão só de peso e medida, problema de hora e lugar. A diferença é que Billy Blanco fala de alegria e tristeza, de ventura e desventura, enquanto penso na farsa transformada em tragédia.

Penso nisso quando vejo circular livremente – às vezes até entre pessoas inteligentes – a impostura da desideologização. Seria de rir, mas não dá, é grave demais. (mais…)

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A comoção

Brigada Militar

Morreu um policial. Assassinado, quem vê a filmagem não tem dúvida. Muitos outros ainda morrerão, nessa profissão perigosa, estressante e mal remunerada. Merece nossas homenagens quem tomba em serviço, e o policial morto tem a minha.

O momento é também de comoção, e na comoção se misturam sentimentos; entre eles, fortalecido pela ideia de que se está numa sociedade conflagrada – em plena guerra, dizem alguns –, viceja o da vingança. Junto com ele, a defesa do confronto. (mais…)

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A Constituição do Estado mínimo

Criança-Morta

Sabemos todos que a limitação de direitos e os retrocessos sociais parece ser uma tendência histórica. Os tempos são de resistência no mundo inteiro, e o Brasil vinha, de certo modo, na contramão desse movimento, embora a crise econômica causasse por si um agravamento nas condições de vida, com desemprego e retrações salariais.

O Governo Temer, que em nenhum momento se apresentou como interino, comportando-se desde logo como se fosse definitivo, teve início com a divulgação de um programa no qual transparecem a agressiva liberalização da economia, privatizações e retrocessos sociais. Parece certo que, em consolidado o golpe, teremos pela frente um período de forte diminuição do Estado. (mais…)

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