Preso a um tema

Kafka

Começo com um duplo pedido de desculpas: pelo trocadilho e pelo retorno ao tema. O fato é que o tema me mantém preso.

É muita coisa acontecendo, notícias vindo de todos os lados, aí escrevo sobre o assunto, sou interpelado, começo a ser procurado por familiares de presos e me torno um ouvidor informal – involuntário e impotente – das suas agruras. Tudo isso me prende.

Deixemos de lado a explicação preliminar, que cria um suspense desnecessário: o tema é, mais uma vez, prisões. (mais…)

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Zeitgeist

cbf

Trago, dos tempos de estudante de ciências sociais e das leituras que então fazia, dois conceitos de ideologia: um é aquele que está lá em Marx, e indica uma falsa consciência resultante das relações de dominação; o outro, mais usado, e que alguns chamavam de significado fraco de ideologia, era o que dizia com um conjunto coerente de ideias, geralmente relacionado ao modo de inserção do indivíduo no mundo econômico ou, mais precisamente, à sua classe social. Por esse segundo conceito, todos têm uma ideologia, de regra identificada nas nuances de um espectro que se estende entre esquerda e direita. (mais…)

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Porque eu vim da Restinga

04/03/2015 - PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - Moradores relatam situação dos aparatos de atendimento a comunidade da Restinga. | Foto:

A frase foi dita há algum tempo, no meio de uma discussão sobre políticas inclusivas. Dita – sublinhe-se – com a pretensão de ser definitiva. Afinal, pensava meu interlocutor, se alguém da Restinga é capaz de superar as adversidades e chegar onde chegou, isso é uma prova cabal de que as oportunidades são iguais para todos. Logo, nada de políticas inclusivas.

Trata-se de um recurso imemorial, sempre usado na mesma proporção em que ocorre a desigualdade social: quanto maior é, mais existe e necessidade de demonstrar que a sociedade oferece mecanismos de inclusão. Pinçam-se, então, exemplos de pessoas bem sucedidas que vieram de bairros pobres e servem de exemplos vivos acerca da possibilidade de sucesso. (mais…)

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As delícias de ser enforcado

forca

Dizem por aí que já se contaram as favas, basta termos um pouco de paciência: passadas as eleições, o mundo maravilhoso virá. Os douradores de pílulas já estão aí, mostrando como será bom acabarem de uma só vez com a previdência pública, com o 13º salário e com o FGTS.

A conta é simples: acaba a previdência, e o salário aumenta em torno de 30%; acaba o 13º, e o valor é diluído em doze meses, dando mais 8,33%; acaba o FGTS, e vêm mais 8%. Resultado: é só acabar com essas inutilidades, e todos os trabalhadores terão imediatamente um aumento salarial de quase 50%. (mais…)

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Ladrão de bicicleta

Ladrões de bicicletas

Propus, e meu colega Adair Philippsen, de Augusto Pestana, topou: faríamos uma oficina de sentença para funcionários e estagiários do Fórum.

Os estagiários eram todos da Unijuí, e levamos a proposta à direção da Faculdade de Direito: a oficina seria uma atividade de extensão, aberta também a alunos que não estagiavam; o Adair e eu nada cobraríamos da Unijuí e ela não cobraria dos alunos, entrando apenas com o espaço da sala de aula e o certificado ao final. A Unijuí também topou. (mais…)

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Quando prende

presídio-feminino

Bom dia. Acho que eu sou só mais uma mãe desesperada. Lendo sua postagem, senti uma dor enorme, pois tenho um filho preso há dez meses. Foi preso como foragido de um processo que não sabíamos que estava correndo, não teve nem direito a defesa. Hoje luto com todas as chances que tenho, mas não tenho sucesso. A juíza alega um reconhecimento por foto, tal foto de quando ele tinha 15 anos, hoje com 21. Reconhecimento feito pela vítima quatro dias depois do fato. Não tenho mais forças. A dor maior é a transformação que meu filho tá vivendo. Nunca foi um playboy, mas sei que, com a decisão de uma juíza, eu não tenho chances. Desculpa o desabafo. (mais…)

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O jurista

Dilma

Disse o jurista: “Penso que não houve crime, mas não é golpe, porque nos golpes os opositores são calados. Aqui houve processo e direito de defesa. E o impeachment está previsto na Constituição. Além disso, trata-se de processo político, e são os senadores que decidem livremente se devem cassar.”

O jurista que assim fala está feliz, porque vivemos uma festa democrática, em que todos discutem política. É a própria pólis.

Ele é culto, leu o Processo de Kafka. Sabe que nenhum juiz condenaria à prisão quem cometeu delito de trânsito. Mas diz que tudo é democrático, porque não se levantou uma baioneta, não houve prisões, torturas, mortes. Nem a imprensa foi censurada. Se assim fosse, seria golpe, mas não é: tem verniz, tem até presidente do Supremo presidindo a sessão.

O jurista diz que o Congresso não precisa de motivo para o impeachment. Então, no dia marcado para a derrubada da presidente eleita, ele comemora a democracia. E diz que não é golpe.

Ouvi. Já não consigo botar ironia no sorriso. O sorriso é de tristeza mesmo.

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Os alienistas

Presídio

Às vezes lembro de Simão Bacamarte, aquele médico machadiano que internou num hospício a população quase inteira da cidade, porque eram todos loucos.

Não é por causa dos hospícios que vem a lembrança, é por causa das prisões. Vejo a cidade cheia de Simões Bacamartes, que querem prender todo mundo, porque todo mundo é criminoso. Claro, comparações são sempre relativas, e as prisões aqui desejadas não são como as internações em Itaguaí, que democraticamente alcançavam todas as classes sociais: no nosso caso, a proposta é prender só os diferentes, lá da periferia. (mais…)

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Elke, que nunca foi mulher

Elke

Fazia uma pesquisinha básica antes de escrever Língua e gênero – uma folheada rápida na gramática e a procura nessa fonte de erudição que é o Google –, quando me deparei com ela. Foi um reencontro mágico depois de muitos anos de separação: lembrava dela como jurada no programa do Chacrinha (ou era do Flávio Cavalcanti?), e, porque aprendemos cedo a ser preconceituosos, antipatizava com aquela figura exótica de voz esganiçada e gargalhadas livres. Numa entrevista ao Jornal Tabaré, essa liberdade estava inteira, escancarada, e me apaixonei tardiamente. (mais…)

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